sábado, setembro 30, 2006

MEMORIAL DE QUELIMANE: I - Rio dos Bons Sinais


E foi que... passada a costa de Sofala, ora afoita em mar alto toda a armada, o leve leme de cada nau a proa inclinou, alvoraçando-se o coração já desesperado e que tanto fiou dum fraco pau:
- lá, aonde a terra bem se avistava, um rio saía ao mar aberto, havia pessoas que sabiam navegar... fluindo sinais que fortaleceram a esperança imensa de achar a rota certa para a Índia.

E assim, em 1498, Vasco da Gama aportou a esta terra erigindo um padrão, e o rio se consagrou dos Bons Sinais pelas novas inspiradas.


Navegar ao longo das cerca de dez milhas que separam a cidade de Quelimane da embocadura do rio dos Bons Sinais significa ainda uma oportunidade para observar vários vestígios do passado, eloquentemente narrados por penas doutas. O percurso desenvolve-se por canais arquitectados pelo arbítrio indomável dos fluxos e refluxos de águas cálidas, sendo marginados por mangais que povoam áreas onde a natureza prodigaliza cenários de altiva opulência. Deleita-se a vista com a rude beleza que impressiona, à míngua do engenho que no negro húmus se atola.
E ali, ao desfazer da curva, onde todas as águas ainda namoram, espraia-se o estuário que beija a cidade que lhe sorri.


Viajo no tempo para a outra margem... aonde o Carungo, aqui ainda convertido em agreste paul, apenas cedeu aos pioneiros a dura gesta de rectilínea picada, perdendo-se no horizonte os altaneiros espiques na terra firme do lendário prazo.


Alvorece já e o ronceiro machibombo anuncia a sua chegada à adormecida Recamba. Contemplo o manto espesso e húmido a dissipar-se, entreabrindo o rio e despindo a cidade, formosa e sem traços de vergonha para esconder. Junto à rampa, o murmúrio chuabo das gentes que esperam precipita-se para o vetusto gasolina que acosta... e vou a reboque antes que se faça tarde!
Num volúvel giro logo a proa fende as águas seguras, prenhes de maresia índica. Ao largo, entregue aos desígnios da fortuna e da generosidade do rio, o pescador ensaia destrezas no manejo da almadia, cuidando de recompensas no dia que vai crescendo.
E na travessia, tida por breve, liberta-se a alma que voa sôfrega ao encontro do lugar que ainda não perdeu no presente a História de vista.


Porque é... que assim continue a ser!

NOTA: - No livro TOBIAS, a personagem Gabelo vivia em Rages, cidade dos medos, sendo relatado que Tobias colocara à sua guarda a importância de dez talentos de prata. Anos depois, S. Rafael foi o arcanjo que guiou o seu filho, também chamado Tobias, na missão de recuperar esse pecúlio.

quinta-feira, setembro 14, 2006

AURORA EM INHASSUNGE... (ou um certo elogio do passado)


A minha expressão da alma flutuando no tempo, como se fosse num amplo rio, ancora em Inhassunge, um lugar situado na margem onde repousam parte das próprias raízes e que, ao interpretá-la, a faz fluir contemplativa.

A aurora acolhe o momento e celebra-o iluminando o início de tudo. Ao longe reflecte-se a nascente que alimenta uma cultura marcada por forte compreensão pela sua origem e que, paulatinamente, vai acentuando um distanciamento das que, na outra margem posicionadas, em absoluto protagonizam a rejeição de todo e qualquer legado.

E assim, AURORA EM INHASSUNGE não é apenas um refrescante reencontro que o imaginário desvenda – no caudal das emoções palpita também um sentido elogio do passado.

terça-feira, setembro 12, 2006

SOBRE O PAQUETE MOÇAMBIQUE - ( Parte II )

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Entretanto, pesquisando na INTERNET, algumas referências alusivas a este paquete foram encontradas. A seguir identifico as descrições que considero mais sugestivas:

  • Em MEMÓRIAS 1, Telémaco A. Pissarro, evocando a viagem do início do seu desígnio africano por terras de Angola, assim descreve:
    (…)
    Embarquei em Junho de 1951 no navio Moçambique rumo ao Lobito. A terceira suplementar era no porão abaixo da linha de água junto das viaturas dos passageiros, separados apenas por um separador de rede de arame forte. Dormíamos em camaratas e beliches. Logo à saída da barra o mar estava com muita ondulação e o pessoal enjoou vomitando. Na camarata havia um cheiro a vómito desagradável. Um angolano preto que estava por baixo da minha cama até chegou a vomitar sangue.
    Chegados à Madeira, saí para apanhar um pouco de ar fresco e tomar algo que me confortasse. Quando coloquei os pés em terra pareceu-me que ela se movia debaixo de mim. Foi uma sensação desagradável mas passageira. Tomei um chá numa esplanada e voltei para bordo um pouco mais confortado. Daí para a frente o mar esteve sempre calmo. Passou o enjoo e, por isso, tive oportunidade de contemplar e apreciar a sua beleza que nunca tinha visto tão de perto. Fiquei fascinado mas mal sabia eu que alguns anos mais tarde iria conhecer tão de perto o que ele tinha de deslumbrante no seu seio, praticando caça e fotografia submarina!
    O barco fez escala em S. Tomé ficando ao largo. Fomos a terra num barcaça. Foi a primeira vez que tomei contacto com gente africana. Francamente gostei. Quando regressámos a bordo trazia um cacho de bananas que tinha comprado mas ainda estavam muito verdes e não fazia sequer ideia de que não amadureceriam quando chegasse ao Lobito. Não amadureceram mesmo e ficaram para os amigos que seguiam para Moçambique. (...)

    Outro registo curioso, se bem que desagradável, evoca uma associação atribuída ao navio na difusão da pandemia da gripe asiática, ocorrida em 1957. Na enciclopédia livre WIKIPÉDIA encontra-se assinalado:
    (…)
    A epidemia de 1957 entrou em Portugal por via marítima, através dos passageiros do navio Moçambique, vindo de portos africanos, onde grassava a gripe. Embora os tripulantes tivessem desembarcado no dia 7 de Agosto em Lisboa, foi em fins de Setembro que a doença adquiriu carácter epidémico, atingindo o seu máximo em Outubro. (...)

    Por fim, sendo certo que este paquete integrou a frota da antiga Companhia Nacional de Navegação e o seu ciclo marítimo decorrido no período de 1949 a 1972, a descrição abaixo que encerra este trabalho, igualmente de contornos dramáticos, faculta um implícito conhecimento de que, afinal, o Moçambique teve um antecessor.
    Assim, em MEMÓRIAS ULTRAMARINAS, de Virgínia Cabral Fernandes, nos parágrafos que respigo pode ler-se:

    (…)
    Quero ainda falar da viagem anterior à última da qual já falei. Foi no fim da Primeira Grande Guerra, de 1914 a 1918. Foi uma viagem terrível. Partimos da Ilha de Moçambique, no paquete Moçambique declarara-se a pneumónica e todos os dias morriam passageiros e tripulantes. Minha mãe contava que já não havia pessoal nem cozinheiro. Era um «salve-se quem puder». Os passageiros tinham de fazer a própria comida. Éramos, na altura, oito irmãos. Minha mãe fechou-nos no camarote e levava lá a comida que confeccionava na cozinha. Já não se faziam caixões nem cerimónias fúnebres. Os corpos eram lançados ao mar, embrulhados em lençóis.
    Quando passámos a Ilha da Madeira o comandante reuniu todos os passageiros mais categorizados que iam a bordo para decidir a rota a seguir pelo barco: irem pelo caminho mais longo, para fugir ao submarino alemão que estava em luta com o caça-minas da marinha portuguesa, o Augusto de Castilho, comandado pelo valente oficial de marinha português Carvalho de Araújo, que morreu em combate, tendo sido substituído, pelo segundo-comandante, tenente Ferraz, outro valente. Conheci este oficial, já almirante, quando esteve chefe do departamento marítimo em Luanda. Foi decidido seguirem pelo caminho mais curto e atravessar em velocidade a zona de combate, pois a situação a bordo, a morrer tanta gente, era insustentável.
    Chegados a Lisboa, onde já grassava a pneumónica, o delegado de saúde ordenou que o barco ficasse de quarentena. Quando entrou a bordo foi recebido à batatada pelos passageiros e ninguém obedeceu à ordem, desembarcando todos e correndo para as famílias, que os esperavam no cais. Minha mãe contava que um senhor que entrara na Ilha de Moçambique, com a mulher e três filhos, chegou a Lisboa sozinho. O infeliz agarrou-se às mãos de minha mãe e, a chorar, felicitou-a por ter chegado ao fim da viagem com o marido e os filhos todos. (...)
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segunda-feira, setembro 11, 2006

SOBRE O PAQUETE MOÇAMBIQUE - ( Parte I )


À semelhança de muitos outros, também meus pais rumaram a África. Assim, Moçambique, no final da década de 40 do século passado, foi o destino para uma permanência por terras da Zambézia que perdurou até 1974, tendo esta vivência determinado o nascimento de todos os filhos em Quelimane.

Na época, as raras vindas a Portugal aconteceram apenas para gozo dos períodos de férias, por regra com um intervalo de frequência nunca inferior a quatro anos.

Até meados dos anos 60 as viagens foram invariavelmente efectuadas por via marítima, circunstância que possibilitou uma identidade com alguns dos paquetes que então operaram nessas rotas.
Ainda de tenra idade viajei no Pátria e no Império pelo que, naturalmente, não retenho qualquer registo desses acontecimentos. Entretanto, em 1958, e praticamente a concluir 7 anos, faria aquela que até ao presente se constitui como a minha última viagem marítima: - a bordo do paquete Moçambique rumei ao continente onde iria iniciar a minha formação escolar e o primeiro longo período de ausência da terra que me viu nascer.


As particularidades deste episódio relevam um sentimento especial que sempre me ligou a este navio, razão porque aqui o trago à memória dedicando-lhe, mesmo que negligenciado no tempo, o testemunho que passo a relatar:

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Praticamente há cerca de um mês que o menino viajava e, feliz, já considerava aquele belo navio como seu.
Quanto mar navegado e quantas terras observadas?! Ao certo não tinha mesmo uma noção exacta, mas isso pouco ou nada representava no seu íntimo.
Começava sim a estranhar a ausência dos coqueiros e dos aromas de copra em madrugadas de cacimbo. E, de quando em vez, interrogava-se: - será que lá no palmar o batuque continua a rufar?
Mas logo o pensamento regressava a bordo, saboreando então muitas das peripécias e brincadeiras que foram acontecendo nos últimos dias. E revia ainda aquela tarde em que a gente adulta organizou umas provas engraçadas para a miudagem participar – por umas horas, que protagonismo teve a pequenada!


Só ainda não se conformava com o desempenho desajeitado e pouco conseguido naquela complicada corrida de saco. Na verdade, pouco faltou para os trambolhões terem sido tantos quantos os saltos dados. E matutava porque é que as meninas foram tão exuberantemente ágeis e expeditas, acabando por ganhar a maioria das provas – hum, será que antes passaram grande parte do tempo só a treinar?

Na calmaria do oceano tudo parecia remanso e nesses momentos gostava de se aproximar da amurada contemplando, embevecido, o suave e gracioso deslizar do navio. Por vezes, também o mar mostrava-se zangado e, com tanta agitação das ondas, o Moçambique balançava, só que o menino não se afligia – tinha aprendido já a confiar cegamente no seu paquete. Por isso, não compreendeu lá muito bem aqueles exercícios de salvamento, com coletes e tudo, bem perto daqueles barquitos suspensos.


Logo nos primeiros dias ficara surpreendido com a grandeza da sala de refeições. Mas ouvir dos pais, diariamente, as mesmas recomendações sobre a postura e o comportamento a ter à mesa tinha-se tornado um aborrecimento. E, quanto ao pequeno-almoço, não morria muito de amor pelo petisco – faltava o bifezinho e a batata frita da sua terra. Como para grandes males grandes remédios, enchendo-se de ousadia, não descansou até ficar amigo do mestre cozinheiro. Então sim, as escapadelas à cozinha passaram a ritual que adorava cumprir e o mestre era mesmo um grande amigo.

E chegou o momento em que os pais avisaram: - chama o teu irmão para te ajudar a arrumar os brinquedos no saco. Amanhã vamos desembarcar em Lisboa.
Já a noite tomara forma quando luzes cintilando à distância denunciavam terra próxima. O navio, acercando-se lentamente, acabou por se imobilizar ao largo, numa baía feérica. Em poucos minutos muitas barcaças acostavam e, num ápice, o convés transformava-se em feira, tanta era a quinquilharia exposta. Outros barquitos vogavam em redor e a cada moeda lançada à água havia sempre alguém que mergulhava. Excitado, o menino rejubilava já com aquele cenário mas, tal como começara, todo o rebulício cessou em pouco tempo e o Moçambique zarpou, retomando a sua rota.
Antes de adormecer, quis então saber o nome daquela terra. Disseram-lhe que era a ilha da Madeira e que acabava de estar na baía do Funchal. E o menino sonhou com uma ilha encantada e sempre em festa.

Ao acordar, pela primeira vez sentia-se mal disposto. Uma turbulência estranha, quanto excessiva, ia provocando alguma inquietação, logo agora que estava prestes a chegar a Lisboa. Quando teve oportunidade, timidamente assomou ao convés e conteve-se, perplexo, ao observar que naquela manhã ensombrada um mar encapelado afoitava o navio. Num vaivém esquisito, tão depressa a proa se erguia como se afundava em demasia. Também céleres vagas chocavam violentamente no costado, até parecendo que queriam tomar de assalto o paquete.

Contrastando com a crispação latente nos rostos de alguns passageiros, junto à amurada vários elementos da tripulação não disfarçavam a sua descontracção e, jocosamente, até teatralizavam em jeito de rima:

Que tareia Moçambique
Com este danado mar
Ainda não foste a pique
Mas a onda quer te virar

E logo um, elevando mais a voz, profetizava: - olha que grande a que lá vem! É ela que o vai voltar…

Confuso com os antagonismos de espírito que presenciava, resolveu regressar ao camarote para desabafar com a mãe. Naquela escadaria, todos os dias trilhada, fez então a sua prova mais rápida – tropeçando, rolou pelos degraus num abrir e fechar de olhos!

Mas sempre houve dias com sorte – o menino não se magoara e na crescente acalmia irrompeu, como se fosse um grito guerreiro, aquele silvo forte, triunfal, que lhe era tão familiar e que já andava a imitar. Gaivotas no ar davam as boas-vindas e, serenamente, se bem que todo transpirado, o Moçambique navegava agora no Tejo, prestes a cumprir mais uma missão.

Ao sair do cais, contemplando o navio em repouso merecido, num aceno furtivo e com um olhar triste, o menino despediu-se para sempre do que já era o seu grande herói no mar.

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domingo, setembro 10, 2006

DE MIM PARA MIM


As árvores crescem belas,
Esperam sempre a Primavera
Para transmitir o sentir
Do que importa viver;
Tão áureo é o seu equilíbrio
Que alguém registou um dia:
"Mesmo quando morrem
Não deixam de estar em pé".

Confesso que a coabitação com as memórias da adolescência tem constituído um exercício com acrescida relevância. Uns logo retorquirão que se trata de ocupação inútil em mente vã, outros ainda irão advogar que sintomas de senilidade estão perigosamente a minar meio século de vida entretanto vencido. E, reconheço, todos sustentarão razões iniludíveis sobre os méritos do comportamento perfilado no hoje e no amanhã – abençoadas mentes que, por vezes, até induzem a crer que o céu deixou de ser o limite.
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