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domingo, dezembro 30, 2007

ZAMBEZE: - o gigante



Por épicas aventuras na história narrado,
De longe, agora liberto e rio a preceito
Para nobre tela de pintor apaixonado,
Chega ledo e plácido em amplo leito




De Morrumbala, por serras e vales deslizante,
Logo o Chire aflui, em enlace silencioso,
E nestas rotas mais nédio fica o gigante,
Por canhoneiras e mercadores outrora famoso



Espraiando-se, na savana dança e recria
Ihotas de mistério feitas de areia e canavial,
Onde, quiçá arrebatado pela sagacidade bravia,
Perspectiva a trama de braços do percurso final



Mas margens de Mopeia, e de Luabo em continuação,
Sustenta a cana doce, senão quando tempos de arrepio;
Então, dos limites desavindo, dos pés foge tanto chão,
Mais parecendo que o oceano aqui tomou conta do rio



Ainda na sua Zambézia, ora de frondes guarnecida,
Sedutor coleia e já filhos errantes vai abraçando;
Na magia do entardecer ensaia sorrisos de despedida
Pois no Chinde, tão perto, só deve entrar suspirando





E no ermo Timbué, ilha mor e não esbelta,
Ainda o poeta, em cada verso, ajusta a vírgula,
Eis que o indómito Índico, engolindo o delta,
O poema ronda para ponto final, frenético na gula


César Brandão - 30.11.2005

terça-feira, novembro 20, 2007

SOPINHO: - outros horizontes?

Abandonando Quelimane em direcção a Macuse, num passado ainda recente nicho vital da Boror, uma das maiores companhias arrendatárias dos extintos prazos da Zambézia, para alguns nem sempre constitui encantamento suficiente desfrutar da exuberante beleza de extensos palmares que se perfilam ao longo dos vários percursos possíveis. Senão, observe-se a alternativa, talvez invulgar mas igualmente sedutora, que estes ousados aventureiros resolveram empreender.



Entretanto, já nas proximidades da barra do Macuse desenvolve-se o povoado de Sopinho, precisamente situado na margem direita do rio Namacurra e junto à foz do mesmo.
Trata-se de local marcado pela ruralidade do meio envolvente, evidenciando pois óbvias carências de infra-estruturas básicas.
A pesca artesanal confere um forte sustentáculo de sobrevivência, mitigando o difícil quotidiano das suas gentes humildes.

Por vezes abalado por águas que se zangam e onde a pobreza naturalmente fere a paisagem, mesmo assim proporciona ao visitante cenários que arrebatam a vista.
E ali, logo na foz do rio, o areal espreita e os horizontes alargam-se, invadidos já pela irresistível maresia do soberbo Índico.

Pressente-se então que os paraísos podem ter periferias diferentes e esta exorbita em aura vadia que há muito transpôs as aringas, congregando mistérios a desafiar os intrépidos.

Margaret, estrela de "rock", quando da sua permanência em Quelimane, no ano em curso, não se eximiu a visitar aquela povoação.

A atracção sentida, muita ou pouca, enforma matéria reservada ao seu círculo de amigos. Todavia, porque testemunho traduzido em suficiente visibilidade, importa relevar o propósito emergente para a realização de um empreendimento turístico, revestindo a natureza de "lodge".

Igualmente se sublinha que a comunidade de pescadores, bem como alguns líderes locais, foram convidados a tomar conhecimento deste plano e a expressar sensibilidades sobre o respectivo impacto no meio.

Resta pois desejar que os ventos soprem de feição, estimulando a concretização da obra.

Força Margaret!


César Brandão - 20.11.2007

quarta-feira, outubro 24, 2007

MEMORIAL DE QUELIMANE: IV - O Elemento Alegórico

Porventura tocado pelo primor das formas ovais quando a inspiração deambulou pelos labirintos da concha, o artista arquitectou os contornos e lá, no recinto da extinta Feira das Actividades Económicas da Zambézia, destinaram-lhe recanto em chão raso, tendo por companheiro o agreste cacto.

Em noites engalanadas de distantes Agostos fulgiu em distinta alvura, tornando feéricos frutos do mar que mãos esculpiram.

Em 1975, quando o espaço começou a evidenciar os primeiros sinais de mudança, meu irmão José Luís descobriu-lhe a singular graciosidade e a irreverente adolescência apelou ao simulacro do voo planado da águia. Talvez já comprometido por sintomas de nostalgia, o amigo Monteiro não disfarçou um olhar ausente.

Em 2007, nas suas aventuras em Quelimane, Lara Bratcher e Kevin Harvey surpreendem-se com aquela área que continua, afinal, a ser palco de feira... mas agora onde tudo serve para negociar.

Enquanto vagueiam Lara não resiste a saborear a água do coco e, como que por magia, protagoniza um reencontro inesperado: - eis então a bonita jovem sentada no elemento que teimosamente sobreviveu no tempo.

Subtraíram-lhe a fluorescência e a brancura corroeu-se na agrura dos anos mas, que importa... por um momento Lara rejuvenesceu-lhe as formas e inundou-o de colorido!



César Brandão - 22.10.2007



sexta-feira, setembro 21, 2007

JOVENS TALENTOS DE OUTRORA


Tendo por cenário o recinto do Sporting Clube de Quelimane, a foto remonta ao início da década de setenta do século passado e ilustra os jovens talentos que na época integraram a selecção de futebol representativa da terra do coco, no escalão júnior.
No torneio inter-capitais provinciais então disputado protagonizou uma participação com assinalável nível competitivo, conquistando simpatia e admiração no ambiente futebolístico do Chuabo.
Pouco tempo depois, alguns destes jovens conseguiram afirmar-se no escalão sénior das principais equipas de Quelimane. Dado o vínculo familiar, mas também porque já uma saudade no presente, em especial relevo José Luís Brandão, meu irmão, pela tertúlia leonina apelidado por "Manafá".



segunda-feira, agosto 20, 2007

PEBANE FISHING CHARTERS

Banhado pelo Índico, o litoral da Zambézia desenvolve-se ao longo do canal de Moçambique e perfaz uma extensão de cerca de 400 kms, sendo a respectiva costa confinada por limites naturais traçados por dois importantes percursos fluviais, ou seja, a sul o rio Zambeze e a norte o Ligonha.
O seu posicionamento no crescente afluxo turístico que tem privilegiado a orla costeira de Moçambique situa-se a um nível secundário e pouco consentâneo com as potencialidades que evidencia.
Entre outros factores, importa salientar que infra-estruturas rudimentares, na generalidade sem capacidade de oferta de serviços básicos essenciais e, bem assim, acessibilidades precárias, senão mesmo inexistentes para várias localidades de reconhecido interesse, têm condicionado o necessário desenvolvimento que urge promover.

A conclusão da ponte sobre o Zambeze, ligando Caia a Chimuara, irá certamente garantir um eixo rodoviário de referência que a província da Zambézia há muito merece, afigurando-se assim vital para a revitalização de muitos sectores de actividade da sua agonizante economia.
Assim sendo, torna-se legítimo antever uma oportunidade única para estimular e garantir incentivos visando consolidar uma industria hoteleira capaz de proporcionar o despertar do interesse turístico por muitos locais esquecidos no tempo.

Nesta perspectiva, as potencialidades da antiga vila piscatória de Pebane são mais que notórias para reforçar o lugar de algum relevo que, pese todas as fragilidades citadas, tem procurado sustentar.
Dotada de extensos areais que outorgam praias de invulgar beleza, e justamente considerada como paraíso pelos amantes da caça submarina, acrescenta agora um novo complexo designado por "Pebane Fishing Charters".


Pese a capacidade de alojamento ser limitada ao ainda reduzido número de edificações construídas, o complexo garante já condições de conforto e de comodidade assinaláveis.

Hugo Proença dá testemunho disto mesmo e acaba por presentear-nos com estas belíssimas fotos que, conjuntamente com outras, poderão ser observadas aqui.


César Brandão - 20.08.2007

segunda-feira, julho 23, 2007

VENTO DE MUENDE

Foi um vento que irrompeu da serra de Muende e trouxe a chuva que encharcou a paisagem.
A chuva escorreu dos penedos altos, em turbilhão; desceu pelos declives, entrou em caminhos abertos pela impetuosidade de antigas enxurradas espumando na queda, sobre pedras, gritava zangas terríveis.
Na quietude do silêncio ouvia-se o rumor de "kulirima" que reboava distante, surdo, num ranger de terramoto sobre a montanha. De quando em vez rasgava os céus"chipoliuale" a iluminar a noite fria e negra para que se visse a natureza, lívida, molhada e transida.
Suavizada a tempestade chega até mim o cheiro morno, intenso, do capim novo, verde, ondulante.
No fruir da bonança surge a tua imagem, o teu corpo, entregue a si mesmo e frágil devido às torrentes diluvianas com que a vida te açoitou; pressente-se uma alma inacabada, por tão jovem, mas já desfeita pelo desgosto.
Contas-me que abandonaste a "machamba" de ouro branco e partiste para a ilha de Moçambique, passaste por Quelimane, foste a Tete e paraste na Beira. Ali recebeste os Outubros soalheiros depois de teres viajado em dongos feitos de troncos de árvore que as correntes do Zambeze arrastaram.
Bebeste as chuvas torrenciais, de muitos Novembros, que encharcaram tudo até aos abismos mais profundos e assim soubeste da terra sedenta, finalmente a rejeitar a febre das secas que lhe haviam consumido as entranhas. Disseste-me então que ouviste o turbilhão gritar de novo nas montanhas, como um aviso de destruição. Viste os rios transbordarem e calarem os fios de água que pelos caminhos contavam, tagarelas, de pedra em pedra, histórias que só os poetas entendem.
Em noites de sombras densas escutaste os tã-tãs em batucada nervosa ou em rufar triste, na invocação dos espíritos, junto ao embondeiro sagrado, pedindo a protecção de "Molungo" para que o chão fosse fonte de riqueza. No ritual olhaste as raparigas nuas a marcar a sua presença, pujantes de mocidade, oferecendo cantares para serem mães. Viste igualmente os homens, frescos e atléticos, dando aos quadris num gingar obsceno, de lanças erguidas nas mãos fortes, cabeça emplumada, tanga a esconder o sexo. Em círculo rodeavam a fogueira, batendo mais rijo os calcanhares no solo que endurecia. Eles gritavam e gingavam, em movimentos de recuo e avanço, com as lanças ameaçadoras dirigidas ao fogo em gesto de expulsão dos maus espíritos. Todos escorriam fadigas mas eram belos, como bronzes polidos. E alargavam o espaço entre si e a fogueira maior. Abriam alas e por entre eles dançavam mulheres, em bambolear lento, lascivo, fazendo o sangue bater o coração mais forte.
Dançavam! Primeiro indolentes, depois mais rápidas até que a dança atingia o delírio. Mais alucinante ainda era quando se confundiam os gritos e os movimentos dos bailarinos que se metiam entre elas. E tu, kulirima, chipoliuale e Molungo, gritaste com eles tocado por essa comunicação de vida que te inunda a carne de compreensões e equívocos.
Ali choraste o teu amor cuja perda te fez abraçar a raiva e ficar como a chuva, espumando na queda e a gritar zangas terríveis qual som do trovão sobre a montanha.
Perdi-te na tempestade.
Posso dizer-te agora que a chuva vai e volta. Kulirima continuará a gritar cóleras mas o húmus faz germinar vidas renovadas, mais fortes, fermentações de coisas mortas que são a razão de coisas vivas. Posso dizer-te também, agora, que nesses elementos se processa o retorno do que foi e torna a ser – de novo – pujante e belo o enamoramento do qual o homem não se cansará nunca!
Procuro-te com o olhar mas és uma miragem...
Choro também o meu amor, suspenso, a desprender-se, tão fustigado que foi por esse vento de Muende que o tornou inútil.
Sinto os olhos inundados de cansaços e saudade.
Peço a Molungo que volte e traga o vento de Muende em bonança, em sopro suave, em sussurro e te beije em carícias ora lentas, carinhosas ou delirantes, como os movimentos de quem baila no ritual.
Peço a Molungo que traga de novo o vento de Muende em afago terno, como o cantar dos fios de água, para te acordar com brandura.
Peço a Molungo que te ofereça a brisa suave que faz ondular os campos, para que possas, de novo, sorrir e abraçar o amor.
Peço a Molungo que te devolva à vida se não puder trazer-te a mim!

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Muende - serra em Moçambique
Kulirima = trovão
chipoliuale = relâmpago
Molungo = Deus

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  • Texto de MARIA JOSÉ PERES, dedicado a um amigo que em Moçambique viveu e amou.

sábado, junho 30, 2007

CANTO DA POESIA: - Um leão ladeia

UM LEÃO LADEIA *

Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro
Séculos e séculos esbatem
o relevo das garras
nas esferas de pedra
Quem o olha imobiliza-se
vendo-o com uma esfíngica
expressão de antiguidade
Nos globos oculares que a areia corroeu
há mesmo um gladiador espelhado
E nem a juba se acama, dócil
à ideia de que a tua mão acaricia
Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro.


* - Poema de O Ritmo do Presságio, um dos livros de Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves. Quer o trabalho em causa, quer ainda A Noite Dividida e O Limite Diáfano, constituem as obras poéticas de Sebastião Alba com maior visibilidade, emanando das mesmas os poemas seleccionados para integrar a antologia UMA PEDRA AO LADO DA EVIDÊNCIA, publicada pela editora Campo das Letras.

Sebastião Alba nasceu em 1940, na cidade de Braga, onde também acabou por falecer em Outubro de 2000, vítima de atropelamento. Conforme vontade manifestada, repousa em Torre de Dona Chama, localidade situada em Trás-os-Montes.

Entretanto, ainda muito jovem rumou a Moçambique, aí vindo a permanecer grande parte da sua vida. Quando radicado em Quelimane, em 1965 publicou o seu primeiro livro, intitulado Poesias.


segunda-feira, maio 28, 2007

MEMORIAL DE QUELIMANE: III - Almadia "Iole"

Do poema Nossas Vidas São Os Rios, de Luis G. Urbina:

"Eu tinha uma só ilusão: era um manso
pensamento: o rio que vê próximo o mar
e quisera um instante converter-se em remanso
e dormir à sombra de algum velho palmar. "
(...)
_____________________________

A Baixa Zambézia é vincadamente marcada pelas bacias hidrográficas dos seus principais rios, precisamente Zambeze e Licungo, a cada passo proliferando braços fluviais. Neste contexto, a singular almadia, pequena embarcação construída a partir de um tronco de árvore, sempre desempenhou um papel relevante na pesca artesanal e, não raras vezes, fundamental no transporte ligeiro.

O meu baptismo em viajar de almadia remonta ao período de infância inicialmente vivido na Barra, precisamente uma das estações de elaboração de copra a partir dos palmares circundantes detidos pela Madal, e situada na zona costeira de Micaúne.

Na época, tal como ainda no presente, ir a Quelimane obrigava à travessia dos estuários do Abreu e dos Bons Sinais. O típico gasolina assumia-se como o meio de transporte preferencialmente utilizado, destacando-se na prestação deste serviço os operadores Humberto no percurso fluvial de Mitange à rampa do Abreu, e Moreira & Filhos na ligação entre a Recamba e a marginal de Quelimane.

Num certo dia, uma inadiável obrigatoriedade de presença em Quelimane foi determinante para superar a travessia do estuário do Abreu com recurso à almadia dada a impossibilidade, na ocasião, de se garantir qualquer outro meio mais seguro.

Meio século já volvido, continuo a sentir calafrios ao recordar aquela primeira experiência... mas agora suspeito quão mais aflito terá ficado o rio que mais que remanso se manteve, quiçá encolhendo-se por entre tudo que fosse mangal. E dormindo... porventura só os admiráveis flamingos a boiarem nas águas quedas. Quanto à minha mãe, não restam dúvidas sobre o recolhimento do espírito na prece invocando a salvaguarda da bonança - até porque, afinal, ninguém sabia nadar!

Já adulto, no início da década de setenta do último finado século regressei à terra mãe para permanência em Inhassunge, área considerada como uma ilha face aos inúmeros braços fluviais que a percorrem. A intimidade com a almadia emergiu de forma instintiva, pelo que para a minha cúmplice companheira de tantos momentos lúdicos cumpre-me sussurrar esta saudade que a memória não deixa expirar.

E, para seu sossego, igualmente em surdina lhe confidencio que os receios... sim, continuam a apoquentar, mas agora perante a hipótese de viajar no avião!


César Brandão - 28.05.2007

sexta-feira, abril 13, 2007

MEMORIAL DE QUELIMANE: II - ZALALA, utopia renovada

A norte, onde Pebane porfia em ostentar paraísos que as dunas resguardam, sobressalta-se a vista e o pensamento eleva-se sob o brilho estelar, círio da linguagem nocturna dos batuques despertos.
Dialoga-se com o firmamento que galvaniza anseios de aventura e já salpicos de mar agigantam a ousadia para morder confins distantes.
Insaciável e competindo com índicas rebeldias, logo delira o espírito que célere navega na conquista de esplendores selvagens que, lá bem para sul, explodem em “tandos” de luxúria que o Zambeze fecunda.
De permeio sorve-se os bons sinais dos rios coleantes que eternizam presságios de rara beleza, e na fronteira de lânguidas casuarinas, onde o palmar soçobra, eis que Zalala emerge, imponente e irresistível, contagiando os sentidos que se libertam em dança.


A ânsia das ondas orquestra então o fascínio que sustenta a perenidade da quimera na memória oculta da boa gente, quando logo horizontes entronizam rubros crepúsculos, cúmplices mensageiros de luas clandestinas que abençoam cânticos dos amantes. E a alma geme tacteando a peugada que as sombras de divas ladeiam.


Qual fogueira que resiste como o eterno rebentar da espuma entregando-se à febre da cálida areia, um palpitar vagabundo alenta agora o ritmo que incendeia paixões que só húmidas madrugadas amornam.
Apenas o tempo silencia as emoções vividas mas a nostalgia apruma-se, assim renovando-se a utopia que o lenho enfeitiçou com a sua água.


César Brandão - 13.04.2007

domingo, março 25, 2007

BOM-DIA PRIMAVERA

Todos os anos camélias e magnólias, entre outras espécies, maravilham os sentidos com a graciosidade de coloridas florações, prenunciando a Primavera.

No seu porte mais modesto, logo a seguir desperta a exótica “forsithia”, inundando os esguios braços de cativante amarelo.

Como que ignorando a precoce exibição daquelas, pacientemente o folhado aguarda o início da estação do crescimento para explodir a florescência, radiosa de alva frescura.

Hoje, redescubro-o neste recanto familiar e não resisto a confidenciar-lhe o meu apreço.
Aqui o exponho para merecida evidência, nele simbolizando a minha saudação à Primavera.

Foto: - Folhado (Viburnum tinus L.)

César Brandão - 25.03.2007


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

REFERENDO - poema para o "Não"

Recebi hoje o poema que passo a transcrever:

ERA TÃO PEQUENO

Era tão pequeno
que ninguém o via.
Dormia sereno,
enquanto crescia.
Sem falar, pedia
– porque era semente –
ver a luz do dia
como toda a gente.
Não tinha usurpado
a sua morada.
Não tinha pecado.
Não fizera nada.

Foi sacrificado
enquanto dormia.
Esterilizado
com toda a mestria.
Antes que a tivesse,
taparam-lhe a boca
– tratado, parece,
qual bicho na toca.

Não soltou vagido.
Não teve amanhã.
Não ouviu: "– Querido..."
Não disse: "– Mamã..."

Não sentiu um beijo.
Nunca andou ao colo.
Nunca teve o ensejo de pisar o solo,
pezinho descalço,
andar hesitante,
sorrindo no encalço
do abraço distante.

Nunca foi à escola
de sacola ao ombro,
nem olhou estrelas
com olhos de assombro.

Crianças iguais
à que ele seria,
não brincou com elas
nem soube que havia.

Não roubou maçãs,
não ouviu os grilos,
não apanhou rãs
nos charcos tranquilos.

Nunca teve um cão,
vadio que fosse,
a lamber-lhe a mão,
à espera do doce.

Não soube que há rios
e ventos e espaços.
E Invernos e estios.
E mares e sargaços,
e flores e poentes.
E peixes e feras
as hoje viventes
e as de antigas eras.

Não soube do mundo
Não viu a magia.

Num breve segundo,
foi neutralizado
com toda a mestria:
Com as alvas batas, máscaras de Entrudo, técnicas exactas,
mãos de especialistas negaram -lhe tudo
(o destino inteiro...)

- porque os "abortistas" nasceram primeiro.


Numa sociedade cada vez mais pródiga no confronto de valores e de referências sinto uma crescente dificuldade em atingir a margem do denominador comum - se é que tal existe e não seja já uma utopia.
Entretanto, tendo presente o domínio abordado pelo poema, pese os flavos discursos dos imperadores de todas as razões, a consciência impõe-me uma só verdade: - o direito à vida não se referenda!
Assim colocado, considerando pois o próximo referendo sobre a despenalização da "interrupção voluntária da gravidez", confrange-me que o exercício do dever cívico de votar seja determinado para mais ou menos alínea legislativa, passível de conflitualidade com a essência primordial em que jamais reivindiquei tutela douta e, pior ainda, sujeito a pergunta que não legitimei ninguém a fazer-me.
Perante tal afrontamento, o não é obviamente inequívoco.

César Brandão - 08.02.2007

domingo, janeiro 14, 2007

PALMAR DA ZAMBÉZIA: - um futuro sombrio


A doença do amarelecimento letal do coqueiro - Coconut Lethal Yellowing - é já considerada no presente a moléstia mais devastadora dos palmares.

Dispersa por várias partes do mundo, o registo da sua ocorrência em Moçambique remonta a meados da última década do século passado, atingindo a severidade dos danos emergentes níveis confrangedores na faixa costeira da província da Zambézia, precisamente a detentora da maior área de palmares em Moçambique e, concomitantemente, a que disponibilizou um contributo decisivo para que aquele país se posicionasse na lista dos maiores produtores mundiais de copra em época ainda recente.

Após 1975, a progressiva desagregação das companhias majestáticas de outrora, tais como Boror, Zambézia e Madal, e um longo período de guerra civil conduziram a um forte constrangimento das práticas culturais requeridas pelo palmar e, bem assim, ao indesejável declínio da produção.
Foi pois neste cenário de óbvia fragilidade que ocorreu o registo da doença na Zambézia, sendo a sua incidência particularmente gravosa nos distritos de Inhassunge e do Chinde, obrigando ao inevitável abate de milhares de coqueiros e, por conseguinte, debilitando ainda mais a já depauperada realidade económico-social das populações locais.

O agente nocivo encontra-se identificado como um fitoplasma, patogénio maior que virus e menor que bactéria, que se instala nos coqueiros e em outras palmáceas, sendo regularmente detectado através de microscopia electrónica nas células dos vasos do floema, tecido que transporta os nutrientes da planta. Assim, afecta a circulação da seiva, problema que evolui rapidamente provocando a morte das plantas infectadas, desfecho que ocorre 3 a 6 meses após o aparecimento dos primeiros sintomas.
O quadro sintomatológico é o característico das doenças vasculares: queda prematura dos frutos em diferentes estados de desenvolvimento, necrose das inflorescências, amarelecimento, murcha e seca das folhas, apodrecimento dos tecidos meristemáticos apicais e, por fim, colapso da coroa deixando o tronco nu - sintoma conhecido como "poste de telefone".


Todo este processo degenerativo é estimulado pela presença de insectos que, alimentando-se do floema de exemplares doentes, adquirem e vão transmitindo o fitoplasma a outras plantas.
Emergindo a doença numa plantação, apesar do grau de infecção ser baixo nos 2 primeiros anos - normalmente não excedendo 10% do povoamento - o certo é que se torna galopante nos anos seguintes, evoluindo para taxas de 30% no 3º ano e de 70% no 4º ano.
Naturalmente que consolidada a existência dos insectos vectores nas áreas afectadas a sua capacidade reprodutiva induz sucessivas gerações, responsáveis por acréscimos populacionais significativos, que vão acentuar a pressão da praga no palmar e, assim, contribuir para aquele repentino e acelerado agravamento.
Em diversas zonas do globo a cigarrinha intitulada
Myndus crudus é reconhecida como o principal vector do amarelecimento letal.


De momento continua a prevalecer uma ausência de qualquer tratamento curativo na luta contra esta doença. O recurso à tetraciclina, injectada directamente no tronco do coqueiro na altura em que evidencia os primeiros sintomas da moléstia, apesar de garantir a sobrevivência por um período de tempo alargado, não constitui alternativa economicamente sustentável, sendo tal prática apenas justificada na manutenção de palmáceas individuais de reconhecido valor genético ou ornamental.

Entretanto, se o combate químico aos agentes vectores pode atenuar a incidência do amarelecimento letal, também os custos elevados da sua aplicação, acrescidos dos riscos ambientais e dos fenómenos de resistência emergentes, inviabilizam este tipo de controlo.

Assim, para além das práticas de erradicação de todo o material afectado e das normas restritivas à circulação de produtos oriundos de zonas não isentas da doença, as expectativas de se garantir o domínio desta enfermidade centralizam-se nos contributos que a investigação científica incessantemente tem procurado disponibilizar, nomeadamente a orientada para os domínios biológico (possibilidade do controlo dos vectores potenciando os seus inimigos naturais, designados predadores) e genético (pesquisa e obtenção de cultivares resistentes).

Perante o descrito, um programa estratégico que promova o repovoamento de toda a área do palmar zambeziano afectado afigura-se prioritário e inadiável, sob pena de se tornar irreversível a não sobrevivênvia da cultura na região e, bem assim, de se hipotecar em definitivo a revitalização do sector de produção da copra, desde sempre responsável por uma das principais fontes de riqueza da Zambézia.

Sabe-se que estão em curso acções de prospecção e abate do material doente, que foram accionados mecanismos de quarentena, que decorrem ensaios com sementes oriundas de zonas não afectadas pelo amarelecimento letal visando apurar o grau de resistência das mesmas e que foi consumada a importação de cultivares de países onde a doença não está declarada com o intuito de aferir a sua adaptabilidade na província.


A adequação destas acções é incontroversa mas, porque o desafio é gigantesco, deseja-se também que o seu enquadramento como causa nacional não suscite dúvidas.

Então, igualmente se requer que as entidades responsáveis não esmoreçam, pugnando em tempo útil pelos meios financeiros indispensáveis à concretização de toda uma estrutura operacional que objective a agilização da investigação agronómica neste domínio, que oriente a divulgação do conhecimento, que fomente a implantação das unidades vocacionadas na obtenção das plantas necessárias a um efectivo repovoamento e que assegure um controlo apertado na reprodução do material vegetativo de forma a salvaguardar uma rigorosa certificação fitossanitária.

Que a determinação humana supere os tempos difíceis, alicerçando caminhos de esperança - a Zambézia merece que o palmar, referência emblemática das suas gentes, sobreviva no futuro sombrio que se projecta, continuando a respirar na quietude das horas de magia que alimentam a nostalgia de rotas do entardecer.


César Brandão - 14.01.2007

sábado, janeiro 06, 2007

ASTRA HARRIS - uma rainha que nos deixa

Natural da Zambézia - Moçambique, tendo nascido no Luabo, decorria o ano de 1952, determinou o destino que ASTRA HARRIS, grande rainha da música moçambicana, ao iniciar-se o ano de 2007 nos abandonasse tão prematuramente.

Neste momento de tristeza associo-me ao choro zambeziano que a tantos invade, manifestando os meus sentimentos a toda a sua família e amigos.

Editado em 1995, Muiana Moçambique constitui-se como o seu primeiro álbum, logo evidenciando toda a sua extraordinária voz e o apego às raízes culturais que tanto amou.
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