domingo, abril 27, 2008

BAPTISMO EM MOÇAMBIQUE - uma nota a rufar

Baptismo em Moçambique pormenoriza a aventura cinegética protagonizada por um grupo de espanhóis. De contornos semelhantes a tantas outras ocorridas em África, mesmo assim despertou particular atenção e inevitável relevância pela simples coincidência de o teatro dos acontecimentos descritos se situar na zona de Micaúne, um dos postos administrativos que integram a divisão territorial do distrito do Chinde e aonde, já em meados da década de 50 do último passado século, vivi os primeiros anos de infância.

Apesar da relativa proximidade a Quelimane, capital da Zambézia, recordo que as acessibilidades, assentes numa rede viária rudimentar e sujeita a forte instabilidade durante a época das chuvas, sempre constituíram um factor de constrangimento a potenciar o isolamento daquela região.
Todavia, nem por isso Micaúne deixou de conquistar, na época, uma posição destacada no sector primário, detendo mesmo uma actividade pecuária extensiva geradora de significativo contributo económico e, fundamentalmente, uma invejável e florescente exploração do palmar liderada pela Madal, uma das companhias majestáticas implantadas na Zambézia.

Arrendatária, entre outros, do antigo Prazo Maindo e consolidando a posse de inúmeras áreas envolventes ao mesmo, a Madal dispunha então da maior mancha de palmar ordenado na zona, estruturalmente designada por 3ª secção, com sede em Micaúne.

O modelo de gestão adoptado promoveu a orientação e o controlo das plantações a partir de diversas unidades de produção, estrategicamente construídas ao longo da área ocupada pelo palmar e designadas por estações, sendo todo o coco canalizado para aquelas e aí sujeito às operações de elaboração da copra.
Saindo de Micaúne, em direcção a Mitange e à orla marítima, pontificavam as estações de Muio e da Barra, precisamente as que foram alvo da minha permanência.
Rumo ao Chinde, já no sentido sul e próximo do mais importante aglomerado comercial de Micaúne, situava-se Magodo como última estação, aí tendo residido a família Fonseca e um dos primeiros amigos de infância – Luís Fonseca.


Meio século decorrido, Baptismo em Moçambique estimulou o retorno a memórias longínquas e já adormecidas e, por um momento, a nostalgia deambulou pela praia da meninice, Barra de seu nome, majestosa na brancura de fina areia e eterna princesa de fascinante horizonte azul onde o insinuante Índico jamais deixou de reinar.
Mas a narrativa também resultou chocante por deixar transparecer uma realidade incontornável: - pese o isolamento, a região da minha infância ainda não conseguiu alicerçar um nível de sustentabilidade seguro e estimulante para projectar um futuro melhor para as suas gentes.

Entretanto, enquanto na savana se resguarda e aprimora um reino selvagem que prossegue em hercúlea sobrevivência, faz já tempo que no palmar tombaram as cercas de “macubar”, retiro nocturno das bestas que mugiam.
Erectos espiques vão definhando, frágeis à moléstia que persiste, implacável a dizimar inconfundíveis copas.
E os caminhantes vagueiam por picadas poeirentas, já vazias de “cafurro” que o tempo consumiu. Confidenciam em “maindo” mas é o cúmplice eco do batuque que lhes exulta o espírito.
Afinal… a vida continua!

César Brandão - 27.4.2008
______________________________________________________________
Macubar - extenso e duro pedúnculo que sustenta a fronde do coqueiro, aproveitado para vários fins, nomeadamente na delimitação de recintos onde o gado ficava confinado para pernoitar no seio do palmar
Cafurro - designação dada ao tegumento, invólucro rígido do coco que reveste a amêndoa, componente branca que extraída e sujeita a secagem origina a copra
Maindo - dialecto local, preponderante entre as formas de expressão vigentes
Ler mais

sexta-feira, março 28, 2008

BAPTISMO EM MOÇAMBIQUE - (Parte IV)

POVOAÇÕES AUTÓCTONES

Quase cumpridos os objectivos cinegéticos, decidimos fazer uma pausa e visitámos uma praia no oceano Índico. Foram quatro horas de ida e outras tantas de volta. Vimos vários povoados míseros. Cabanas realizadas com folhas de palmeira ou com ladrilhos de adobe, circulares ou rectangulares, de uns 10 metros quadrados, com um pequeno pátio rondando os 6 metros quadrados. Não há água corrente, nem electricidade, nem saneamentos, nem latrinas. Nada de nada. Mulheres jovens com olhar triste, serenas e resignadas com várias crianças à sua volta, que saudavam sorridentes à nossa passagem. E sempre com alguma às costas, à maneira de mochila.
Passámos por uma plantação de coqueiros sob orientação de um português que, junto à sua mulher, nos convidou a tomar café. Contaram-nos que ali aguentaram toda a revolução e pensavam ficar para sempre. Os coqueiros dão até 12 colheitas por ano. Os naturais vivem disso, para além da mandioca e das batatas. Todos têm a malária.
No trajecto não nos cruzámos com qualquer veículo a motor. Só pessoas andando, uma ou outra bicicleta e um par de carros de bois. Vimos vários estudantes com uniforme que iam andando para a escola e mulheres com volumes à cabeça. Ao passar algumas ofereceram-nos pescado recém-capturado.

Na praia descascaram dois cocos tenros e bebemos a sua água. Estavam um pouco quentes, o que foi uma pena porque o sabor era uma delícia, muito diferente do que conhecemos aqui. Tomámos banho numa imensa praia, com areia branca e finíssima e água cristalina e quente.


FACOCERO

No dia seguinte, terça-feira, 13 de Setembro, saí com Ángel, na companhia de Walter, como caçador profissional, que não tinha nada que ver com Alain: - sério, alto e atlético, de uns 55 anos, cabelo curto com aspecto de operacional e grande conhecedor da sua profissão.
Ángel levava a sua Ruger 416 Rygby e com ela disparou e cobrou um magnífico cabrito do mato para a seguir, numa espécie de perseguição a grande velocidade pelo campo com vegetação muito alta, e após uma travagem, disparar sobre um Bush-pig, cobrando-o à segunda tentativa. Posteriormente caiu um bom facocero.
Almoçámos no acampamento e a tarde foi dedicada a recuperar o búfalo que Ángel tinha ferido no dia anterior. Fomos em coluna, Walter, Ángel, a mulher do profissional, dois batedores, um carregador e eu com a 375 H&H. Penetrámos numa zona de bosque, o mais silenciosamente possível, com uma imensa sensação de perigo já que o búfalo ferido podia estar a vigiar-nos.
Após várias horas abandonámos a busca, considerando-o por perdido. Dias depois, localizado pelos abutres, foi encontrado morto. Um bom troféu que Ángel acrescentará aos que já tem no seu pavilhão.

Regressámos à viatura e por volta das 17,30 horas, quando o sol se punha, na mata brava alta e a uns 100 metros, vimos um bom facocero. Só se via praticamente os seus grandes colmilhos. Encarei-o, dirigi a cruz para onde deveria estar o codilho e disparei, ali ficando sem necessidade de remate.
O facocero ou javali africano – warthog, está muito espalhado por toda a África sub-sariana. Encontram-se em grupos familiares de macho, fêmea e várias ninhadas, ainda que muitos dos velhos sejam solitários. Repousam durante as horas de calor, alimentando-se ao anoitecer. Dormem em esconderijos nos quais entram recuando para conseguirem defender-se. Habitualmente silenciosos, têm um ouvido e um olfacto muito apurados. É um troféu mais apreciado pelo caçador espanhol que pelo americano.
Nessa noite, depois do jantar, reunimos todo o pessoal do acampamento para lhes dar a regulamentar gratificação.

Pela tarde chegou a Barón, com um grupo de sul-africanos que iam caçar búfalos com arco. Às sete horas da manhã do dia seguinte iniciámos o regresso. Sobre a cabeça, os carregadores levaram o nosso equipamento até à avioneta. O terreno estava enlameado, mas descolámos sem problemas rumo à Beira. É uma cidade maior e com melhor aeroporto, ainda que com escasso tráfego.
Reiniciámos o voo até Polokwane para ajustar contas, e dali para Joanesburgo aonde partimos no Airbus 340, da Ibéria, chegando a Madrid às 6,50 horas.

Esta foi a história de um outonal baptismo em que actuaram, como padrinho o meu amigo Sr. Caçador de León, e como testemunhas os Srs. Catalán Doshijos e Román La Seca.
E assim acabou a minha primeira e emocionante experiência cinegética, da qual guardo uma recordação indelével.

Era sábado, 17 de Setembro.
Ler mais

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

BAPTISMO EM MOÇAMBIQUE - (Parte III)

WATERBUCK - Kobus ellipsiprymnus

Na manhã de 11 de Setembro levantámo-nos às 4,30 horas e, após o pequeno-almoço, encetámos a marcha. Como sempre, Juan e eu íamos no assento corrido, retesados de frio, com os ombros encolhidos e os braços cruzados para proteger as mãos. À semelhança dos dias anteriores, rodeados de papiros, atravessámos o leito de um riacho com pouca água e muita lama, que se vencia com dificuldade por sobre uns troncos rudimentarmente cortados e que abanavam ao passar o Toyota.

Logo ao amanhecer, com intensa névoa, à direita e a uns 150 metros vimos um imponente waterbuck, localmente designado por inhacoso, piva ou namedouro. A sua silhueta, de frente mas desvendando um pouco o costado esquerdo, e a esplêndida cornamenta recortavam-se na bruma. Estava mirando com uma postura que parecia altivez, mas era pura curiosidade.
Era um macho solitário extraordinário. Juan emprestou-me a sua arma e não hesitei. Pus a cruz da mira telescópica sobre a omoplata esquerda e disparei. Caiu instantaneamente. O tiro foi muito bom e a intensa emoção sentida fez-me caçador. Um calafrio percorreu-me o espinhaço até deter-se na nuca. O coração palpitando, os membros trémulos e o formigueiro facial dominaram o meu corpo durante vários minutos. Depois uma intensa alegria que não me abandonou pelo dia inteiro.
Após as efusivas felicitações e os registos fotográficos correspondentes, passámos à realização das medições.

Os inhacosos são animais que vivem perto da água, refugiando-se nos canaviais. Têm uma pelagem grisalha, com os sobrolhos e os trajectos lacrimais brancos, exibindo ainda um invulgar círculo branco desenhado nos quartos traseiros, cuja perfeição faz lembrar um alvo de setas. Vivem em pequenos grupos de 5 a 20 cabeças, praticamente só constituídos por fêmeas e um macho. Os bons troféus são os machos velhos que, tal como este, são solitários. São perigosos quando se sentem atacados. Contaram-me casos em que reagiram ferozmente contra o caçador.

PALAPALA - Hippotragus niger

Para evitar que fosse visto pelos abutres e ser recolhido no regresso, cobrimos o animal com rama verde e prosseguimos em busca de uma boa palapala para Juan. Avistámo-las cerca das 2 horas da tarde. Eram seis com um bom macho. Estavam a uns 800 metros, em zona de escassa vegetação, mas sabiam ocultar-se. Saltámos do Toyota e começámos a aproximação. A 200 metros o vento colheu-nos, despertando a fuga. Juan atirou precipitadamente, errando. Retornámos ao todo o terreno para dar a volta e encontrar o vento de frente. Detectadas novamente, fomos diminuindo a distância até nos situarmos a uns 100 metros. Juan disparou cobrando um magnífico macho, que o deixou plenamente satisfeito. Impressionou-me a sua beleza e imponência, com uma pelagem negra brilhante, crina e longos e curvados cornos.
É um animal agressivo, que não hesita em atacar quando se sente ameaçado. Estes antílopes vivem em rebanhos dominados por um macho, mas geralmente quem lidera é a fêmea mais velha.

Como nos dias anteriores, comemos uma sanduíche, não sei com quê, e ingerimos uma coca-cola. Sem descansar, continuámos toda a tarde.
Ao anoitecer, depois de recolhermos o inhacoso, e ainda com os últimos raios de luz, encontrámos um bushbuck, na zona identificado por cabrito do mato. Juan atirou da viatura, cobrando a peça com um segundo disparo.

Ao deitar-me veio à mente a grande afeição do meu pai. Levava-nos pela herdade espreitando lebres, levantando perdizes e esperando coelhos, para além das anunciadas montarias. Imaginava-me o mais feliz do mundo por desfrutar de uma oportunidade como esta e a ele a dediquei.

O mais relevante no dia seguinte foi o aguaceiro que nos surpreendeu em pleno mato. Ainda bem que levava na mochila o impermeável, incluindo calças. Contudo, Juan ficou completamente encharcado. A agravar a situação também ocorreu um furo numa das rodas obrigando à sua mudança, para depois a viatura ficar atascada na lama. Foi necessário o esforço de todos para sair.
Quando chegámos ao acampamento as cabanas estavam cheias de goteiras, penetrando também o vento pelas folhas de palmeira. As janelas, no lugar dos vidros, estão providas de um mosquiteiro de plástico verde. Nessa noite saltaram, desde a água uma rã sobre mim, e para a cama uma enorme lagartixa. Apanhei um bom susto.
Capítulo singular era o das comidas. Ángel empenhava-se em comer as coisas mais raras dos animais caçados. Parecia um manjar esquisito a língua estufada de inhacoso, assim como o coração de palapala guisado ou o rabo de búfalo, pelo que a minha recusa era pretexto para gracejo. Se havia bons lombos, porquê comer vísceras ou miudezas?


Ler mais