Então, inexorável, o tempo acrescentara já uma dúzia de anos à apaixonante mas dramática gesta do cultivo do cafezeiro naquela região que, ao longo dos anos 50, sustentou um ciclo de vertiginosa expansão daquela rubiácea, anteriormente referenciada como cultura sem tradição em Moçambique, confinada a áreas marginais e com produções insignificantes, pese a particular visibilidade do "Coffea racemosa", espécie espontânea nas áreas arenosas a sul do Save.
Efectivamente, a partir de 1950 o marasmo reinante foi fortemente beliscado pelo inconformismo humano e nas alturas da Zambézia, onde o planalto se desfralda desafiante, a 700-800 metros de altitude abençoado por condições ambientais de eleição, despertaram sonhos arquitectando outros horizontes. Localidades como Gurué, Tacuane e Milange tornaram-se palco fértil para destemidos pioneiros, mas foi em Nauela que os mais intrépidos, refinando a audácia por veredas sinuosas, procuraram o rumo da perfeição. E em menos de 10 anos, sob o aconchego da serrania, a esperança de alguns emergiu pujante na generosa natureza, tendo como bandeira a espécie "Coffea arabica", aprimorada com paixão nas courelas da Boa Esperança, exploração de Adrião de Faria Gonçalves, considerado o principal pioneiro da espécie na região.
Nauela, enriquecida por uma panorâmica esplendorosa, trajou então cenários de deleite que cativaram a vista e enamoraram a alma. Tarquínio Hall, em desvelado artigo, ajuda-nos a compreender aquela época.
- Do trabalho intitulado NAUELA E A CULTURA DO CAFÉ «ARÁBICA» OU «ROBUSTA», na época publicado no Notícias, de Lourenço Marques, fragmento das considerações do agricultor da região Sr. Tarquínio Hall.
Nauela é o varandim da Alta Zambézia. Fincada nos píncaros da serra Inago, nada em redor impede a vista de se alargar na linha do horizonte senão a mancha vaga dos picos Namuli, a muitas léguas de distância. E só em dias de céu varrido; porque basta um farrapo de nuvem ou a mais ténue neblina para apagar a cabeça do monstro.
Que cenário maravilhoso! Perto, tudo são ondulações irregulares que o cafeeiro sobe e desce em socalcos simétricos que as copas escondem e a erosão não vence; só longe figuram as primeiras manchas florestais e mais longe ainda a silhueta desbotada doutras tantas serranias. E que clima admirável para o colono europeu se dar todo inteiro ao torrão criamoso! É que faz frio neste planalto tinto de verde, com casas novas a branquejar nas rendas das aleurites e manadas preguiçosas mordiscando a relva fina: nos meses de Junho a Agosto há dias em que o mercúrio quase ronda o zero centígrado.Ler maisNos primórdios de 1959, nas zonas de montanha, o cultivo do cafeeiro em Moçambique rondava já uma área próxima dos 5.000 hectares, incidindo maioritáriamente na Alta Zambézia.Nesse mesmo ano um talhante despacho do então Ministro do Ultramar determinou a extinção da Delegação da Junta de Exportação do Café, proclamando: - "Moçambique não podia produzir café, só chá, e Angola não podia produzir chá, só café".






























