segunda-feira, abril 30, 2012

segunda-feira, abril 02, 2012

II - A SOCIÉTÉ DU MADAL - (Fearnley, Bobone & Cie)

(...conclusão)

O problema do gado para trabalho e adubação tem sido vivamente sentido nos palmares zambezianos, (...). A Société du Madal que possuía, em 1913, apenas 250 cabeças conta hoje à volta de 8.000. Um dos seus grandes trabalhos foi a derruba completa da famosa floresta do Zalale, trabalho que ficou concluído em 1935 e satisfez uma das grandes aspirações da empresa. Hoje, onde foi a floresta do Zalale encontra-se uma bela plantação de coqueiros com mais de 50.000 plantas, e o gado tem aí um lugar seguro e limpo do perigo da mosca.

(...) Várias tentativas tem feito a Société du Madal para a introdução de outras culturas nas suas terras. Algumas dessas tentativas foram dirigidas por técnicos que a empresa expressamente contratou para tal. Os resultados não foram, todavia, encorajadores, e a «Madal» dedicou-se quase exclusivamente à cultura do coqueiro, cujo aperfeiçoamento lhe tem merecido atentos cuidados. Para alguns estudos, designadamente das doenças do coqueiro, contratou especialistas. A escolha dos adubos, quer de origem química quer de natureza vegetal, mereceu-lhe, também, particulares atenções, importando e ensaiando diversos - para concluir que é ainda, afinal, o proveniente dos gados que proporciona mais vantajosos resultados.
Nas plantações, o sistema de distribuição de plantas adoptado é o de rectângulos e equidistâncias de 10 metros. 
O enxugo das terras foi outro problema que a «Madal» teve de resolver, tanto mais que os seus terrenos se acham em regiões baixas e alagadiças, na bacia do Zambeze. Foram abertas extensas valas de drenagem, sobre alguns milhares de quilómetros, com ligação a canais, mucurros e rios próximos. Assim, não só se obteve melhor aproveitamento das terras, como se realizou apreciável obra de saneamento, em benefício da população indígena dessas regiões que mesmo fora da época de chuvas se mantinham alagadas.
Um dos justos motivos de orgulho da Société du Madal é a produção, conseguida após metódicas experiências nas estufas, de uma copra branca hoje conhecida e negociada nos mercados da Europa como copra «Plantação Tipo Madal», equivalendo à copra de Ceilão.

(...) No ramo comercial, a «feitoria» da «Madal» em Quelimane, além de funcionar em agência de diversas empresas de navegação, de seguros e de viaturas automóveis, dedica-se a importações e exportações, compra de copra de produção local e moagem de produtos da Colónia para alimentação dos trabalhadores indígenas das plantações.

A ultimar estas breves notas sobre a actividade da Société du Madal na Zambézia, foquemos ainda a questão dos transportes - cuja importância facilmente se conclui ao considerarem-se a grande extensão e dispersão das plantações.
Assim, grande número de estradas ladeiam e cruzam as plantações, delimitando as divisões estabelecidas, ligando as estações agrícolas e drenando as colheitas no interior dos palmares. Os transportes são realizados por carros de bois, camiões, zorras sobre linhas Decauville, e, nos canais e mucurros, por lanchas de pequeno calado, que conduzem os produtos das plantações para os locais de beneficiação, nas estações agrícolas.
Destas para o porto de embarque, Quelimane, são os produtos transportados em lanchas rebocadas por barcos a motor de óleos pesados ou gasolina. A frota empregada neste serviço compõe-se de oito batelões de ferro, sete lanchas de madeira, sete escaleres e quatro barcos a motores.
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quinta-feira, março 22, 2012

I - A SOCIÉTÉ DU MADAL - (Fearnley, Bobone & Cie)

Crónica de João Rodrigues Sequeira, publicada em:
MOÇAMBIQUE - Documentário Trimestral
Nº 38 - Abril/Maio/Junho - 1944
Páginas 61 a 71



A SOCIÉTÉ DU MADAL é uma das grandes empresas zambezianas que têm realizado na Baixa Zambézia, distrito de Quelimane, uma muito notável obra de ocupação económica e de colonização em geral. Formaram-se essas  empresas - ou, como se diz na Zambézia, «as Companhias» - sobre a deliquescência do secular regime dos «prazos». E pode dizer-se que se formaram por um processo de absorção capitalista da pequena propriedade - os «prazos» - se bem que, realmente, o processo tivesse já começado antes delas, com a reunião de vários «prazos» em grande domínio na posse, ou arrendamento, de um só proprietário. Há que reconhecer que tal absorção foi um bem, uma vez que o objectivo capital dos «prazos» - povoamento, fixação de famílias à terra pela exploração agrícola, pequena ou média - falhara em consequência do absenteísmo dos «senhores de prazos». Assim, a Zambézia, onde, por meados do século XVII, se tentara lançar os fundamentos de uma colonização de povoamento, veio a tornar-se, nos finais do século XIX, um exemplo típico de colonização capitalista. Os resultados foram notáveis. A Zambézia acha-se hoje dotada de alguns dos maiores  e mais belos palmares do mundo e foi, até anos recentes, a única região de Moçambique que contava como um real valor económico, sendo hoje ainda um dos mais característicos núcleos da Colónia, pela população, costumes, trabalho e produção.

A Société du Madal estabeleceu-se na Colónia em 1903, montando os seus escritórios na então vila de S. Martinho de Quelimane, na rua que tem hoje o nome de João de Azevedo Coutinho. Instalou-se numa casa que tomou por compra ao conde de Vila Verde, de quem tomou também, por trespasse, o arrendamento dos «prazos» Madal, Tangalane e Cheringone.
Em 1904, a «Madal», como é comummente designada na Zambézia, comprou à Compagnie des Huileries et Savonneries de Moçambique as instalações que esta possuía na actual Rua D. Luiz Filipe e estabeleceu nelas, onde ainda hoje permanece, a sua feitoria. Também, nesse ano, tomou o arrendamento do «prazo» Maindo, por trespasse da firma Correia de Carvalho; e, em 1916, o do «prazo» Inhassunge, de que era arrendatária a firma Ribeiro & Ca, Limitada.
Inicialmente, a razão social era Société du Madal (Gonzaga Bovay & Cie), depois modificada para Société du Madal (Chr. Thams & Cie). Posteriormente, em 1926, adoptou nova designação (Société du Madal - Bobone, Bonnet & Cie), que em 1929, após o falecimento do conde de Bobone e do director geral em África, Theopile Bonnet, passou à actual designação, com a entrada para a firma do cidadão norueguês Thomas Fearnley. A sede social é em Mónaco.

Com os «prazos», cujo arrendamento adquiriu por trespasse, a Société du Madal iniciou a sua exploração agrícola com 70.000 coqueiros. Imprimiu grande desenvolvimento aos palmares, quer nos territórios dos «prazos», cujo arrendamento tomara, quer em novos terrenos que aforou. Assim, o número de palmeiras elevava-se, ao cabo de dez anos, em 1913, a 240.000. Em 1923 era de 500.000, em 1933 de 720.000 e em 1943 de 807.300. Presentemente, atinge cerca de 840.000.
(...) As plantações não ocupam uma área contínua. Distribuem-se pelas áreas da sede do concelho de Quelimane, do posto administrativo de Inhassunge, na margem direita do rio dos Bons Sinais, e do posto administrativo de Micaúne, no concelho do Chinde, margem esquerda do Zambeze. Estão repartidas por vinte e sete estações agrícolas, à testa de cada uma das quais se acha um empregado europeu, português, com um auxiliar, natural de Quelimane, assimilado. Por essas vinte e sete estações distribuem-se trinta e uma estufas para secagem e fabricação da copra, construídas em alvenaria, quarenta e sete bebedouros para gado, com as respectivas bombas, e onze tanques carracicidas. E em cada estação existem habitações dos empregados, várias dependências e armazéns.
De modo geral, todas as plantações foram precedidas de grandes trabalhos de derruba, que mobilizaram enormes contingentes de mão-de-obra indígena, visto como o emprego de gado era, então, impraticável pela abundância da tsé-tsé. Os regulamentos de trabalho indígena que então vigoravam, relacionados ainda com a antiga e tão interessante instituição secular dos «prazos», permitiam um recrutamento fácil e copioso de trabalhadores.
Embora os números que atrás se apresentam traduzam um apreciável e constante desenvolvimento das plantações, é de notar que a actividade da empresa atravessou fases de adversidade, sem as quais o progresso teria sido bem mais acentuado. Assim, por exemplo, a campanha da Grande Guerra exigiu a saída de milhares de trabalhadores que os arrendatários dos «prazos» tinham de fornecer para carregadores. Os trabalhos agrícolas foram reduzidos para um rigoroso mínimo e o restabelecimento da actividade normal, uma vez a campanha terminada, foi longo e difícil.
Em 1930, após anos de instabilidade dos mercados e das cotações, pronuncia-se, até quase o pânico, a queda da cotação da copra. Os palmares zambezianos foram, por isso, profundamente afectados. Trabalhos já em decurso e projectos de ampliação das explorações tiveram de ser suspensos e a actividade das empresas restringiu-se a simples trabalhos de conservação.

(continua...)
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