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domingo, janeiro 14, 2007

PALMAR DA ZAMBÉZIA: - um futuro sombrio


A doença do amarelecimento letal do coqueiro - Coconut Lethal Yellowing - é já considerada no presente a moléstia mais devastadora dos palmares.

Dispersa por várias partes do mundo, o registo da sua ocorrência em Moçambique remonta a meados da última década do século passado, atingindo a severidade dos danos emergentes níveis confrangedores na faixa costeira da província da Zambézia, precisamente a detentora da maior área de palmares em Moçambique e, concomitantemente, a que disponibilizou um contributo decisivo para que aquele país se posicionasse na lista dos maiores produtores mundiais de copra em época ainda recente.

Após 1975, a progressiva desagregação das companhias majestáticas de outrora, tais como Boror, Zambézia e Madal, e um longo período de guerra civil conduziram a um forte constrangimento das práticas culturais requeridas pelo palmar e, bem assim, ao indesejável declínio da produção.
Foi pois neste cenário de óbvia fragilidade que ocorreu o registo da doença na Zambézia, sendo a sua incidência particularmente gravosa nos distritos de Inhassunge e do Chinde, obrigando ao inevitável abate de milhares de coqueiros e, por conseguinte, debilitando ainda mais a já depauperada realidade económico-social das populações locais.

O agente nocivo encontra-se identificado como um fitoplasma, patogénio maior que virus e menor que bactéria, que se instala nos coqueiros e em outras palmáceas, sendo regularmente detectado através de microscopia electrónica nas células dos vasos do floema, tecido que transporta os nutrientes da planta. Assim, afecta a circulação da seiva, problema que evolui rapidamente provocando a morte das plantas infectadas, desfecho que ocorre 3 a 6 meses após o aparecimento dos primeiros sintomas.
O quadro sintomatológico é o característico das doenças vasculares: queda prematura dos frutos em diferentes estados de desenvolvimento, necrose das inflorescências, amarelecimento, murcha e seca das folhas, apodrecimento dos tecidos meristemáticos apicais e, por fim, colapso da coroa deixando o tronco nu - sintoma conhecido como "poste de telefone".


Todo este processo degenerativo é estimulado pela presença de insectos que, alimentando-se do floema de exemplares doentes, adquirem e vão transmitindo o fitoplasma a outras plantas.
Emergindo a doença numa plantação, apesar do grau de infecção ser baixo nos 2 primeiros anos - normalmente não excedendo 10% do povoamento - o certo é que se torna galopante nos anos seguintes, evoluindo para taxas de 30% no 3º ano e de 70% no 4º ano.
Naturalmente que consolidada a existência dos insectos vectores nas áreas afectadas a sua capacidade reprodutiva induz sucessivas gerações, responsáveis por acréscimos populacionais significativos, que vão acentuar a pressão da praga no palmar e, assim, contribuir para aquele repentino e acelerado agravamento.
Em diversas zonas do globo a cigarrinha intitulada
Myndus crudus é reconhecida como o principal vector do amarelecimento letal.


De momento continua a prevalecer uma ausência de qualquer tratamento curativo na luta contra esta doença. O recurso à tetraciclina, injectada directamente no tronco do coqueiro na altura em que evidencia os primeiros sintomas da moléstia, apesar de garantir a sobrevivência por um período de tempo alargado, não constitui alternativa economicamente sustentável, sendo tal prática apenas justificada na manutenção de palmáceas individuais de reconhecido valor genético ou ornamental.

Entretanto, se o combate químico aos agentes vectores pode atenuar a incidência do amarelecimento letal, também os custos elevados da sua aplicação, acrescidos dos riscos ambientais e dos fenómenos de resistência emergentes, inviabilizam este tipo de controlo.

Assim, para além das práticas de erradicação de todo o material afectado e das normas restritivas à circulação de produtos oriundos de zonas não isentas da doença, as expectativas de se garantir o domínio desta enfermidade centralizam-se nos contributos que a investigação científica incessantemente tem procurado disponibilizar, nomeadamente a orientada para os domínios biológico (possibilidade do controlo dos vectores potenciando os seus inimigos naturais, designados predadores) e genético (pesquisa e obtenção de cultivares resistentes).

Perante o descrito, um programa estratégico que promova o repovoamento de toda a área do palmar zambeziano afectado afigura-se prioritário e inadiável, sob pena de se tornar irreversível a não sobrevivênvia da cultura na região e, bem assim, de se hipotecar em definitivo a revitalização do sector de produção da copra, desde sempre responsável por uma das principais fontes de riqueza da Zambézia.

Sabe-se que estão em curso acções de prospecção e abate do material doente, que foram accionados mecanismos de quarentena, que decorrem ensaios com sementes oriundas de zonas não afectadas pelo amarelecimento letal visando apurar o grau de resistência das mesmas e que foi consumada a importação de cultivares de países onde a doença não está declarada com o intuito de aferir a sua adaptabilidade na província.


A adequação destas acções é incontroversa mas, porque o desafio é gigantesco, deseja-se também que o seu enquadramento como causa nacional não suscite dúvidas.

Então, igualmente se requer que as entidades responsáveis não esmoreçam, pugnando em tempo útil pelos meios financeiros indispensáveis à concretização de toda uma estrutura operacional que objective a agilização da investigação agronómica neste domínio, que oriente a divulgação do conhecimento, que fomente a implantação das unidades vocacionadas na obtenção das plantas necessárias a um efectivo repovoamento e que assegure um controlo apertado na reprodução do material vegetativo de forma a salvaguardar uma rigorosa certificação fitossanitária.

Que a determinação humana supere os tempos difíceis, alicerçando caminhos de esperança - a Zambézia merece que o palmar, referência emblemática das suas gentes, sobreviva no futuro sombrio que se projecta, continuando a respirar na quietude das horas de magia que alimentam a nostalgia de rotas do entardecer.


César Brandão - 14.01.2007

sábado, janeiro 06, 2007

ASTRA HARRIS - uma rainha que nos deixa

Natural da Zambézia - Moçambique, tendo nascido no Luabo, decorria o ano de 1952, determinou o destino que ASTRA HARRIS, grande rainha da música moçambicana, ao iniciar-se o ano de 2007 nos abandonasse tão prematuramente.

Neste momento de tristeza associo-me ao choro zambeziano que a tantos invade, manifestando os meus sentimentos a toda a sua família e amigos.

Editado em 1995, Muiana Moçambique constitui-se como o seu primeiro álbum, logo evidenciando toda a sua extraordinária voz e o apego às raízes culturais que tanto amou.
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