quarta-feira, dezembro 06, 2006

CANTO DA POESIA: - Poema para a Negra

Província do Namibe, antiga Moçâmedes
Jovem do grupo dos Cuvales, correntemente designado por Mucubais
(povo nómada vivendo da pastorícia)

POEMA PARA A NEGRA*

Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volúpia vã do pitoresco,
entoem madrigais à tua dor.

Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que têm sabor de manga.

Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista fácil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captação atónita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a própria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!

*- VÍCTOR, Geraldo Bessa. Obra poética. Escritores dos países de língua portuguesa. Lisboa: INCM, 2001.

Natural de Luanda, Geraldo Bessa Victor nasceu em 1917, vindo a falecer em Lisboa no ano de 1990. A sua poesia desdobra-se por várias obras publicadas, tais como Ecos Dispersos, 1941; Ao Som das Marimbas, 1943; Debaixo do Céu, 1949; Cubata Abandonada, 1958; Mucanda, 1964; Sanzala sem Batuque, 1967 e Monandengue, 1973.

domingo, novembro 26, 2006

IRMÃOS SOMOS...

  • Abraçando a emoção na face das luzes, faz já tempo, imagine-se um ano, que a lucidez da inconsciência foi percorrendo os degraus incertos da inspiração. Puro exercício consumido à margem do fruto dos eleitos, esse mesmo em que cada gomo alimenta a palavra sublimando o verso.

  • Apesar de tudo, "Irmãos Somos..." aqui recordo, até porque hoje, teimosamente, persistem nuvens de desassossego. E, mesmo que a cinza se adense nos olhos, sejamos então sentinelas do inconformismo e intrépidos a rolar, perseguindo a esquiva claridade que no horizonte vai sustentando miragens do paraíso.

domingo, novembro 12, 2006

GORONGOSA - na peugada da magia

Vários documentários sobre o renascer do


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quarta-feira, novembro 01, 2006

MILANGE - um olhar de saudade

Selecção de imagens que integram o álbum


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sábado, outubro 28, 2006

O COIRO REDONDINHO


O cenário repousa nos tempos idos e – vá lá saber-se porquê – alfinetou o intérprete, então destemperadamente suspenso em bazófia arregaçada, insinuando artifícios para pelejar o coiro redondinho. Porventura ofendido, ou a lamentar que até uma forma quadrada não merecia o rude pontapé de tamanco tão tosco, escapa-se o dito em desatinado voo.
Na sua trajectória, aflito, encolhe-se o adversário. Colegas de armas petrificam-se com a facécia e o homem do apito, de ganga camuflado, interroga-se que raio de disputa arbitra.
O guardador de redes, distraído a perscrutar o Mondego que, indiferente, ao lado voga mais interessado em refrescar amores no Choupal, já tarde desperta para o projéctil a ziguezaguear em fúria. E sente o frémito de redes agitadas amparando, finalmente, aquele coiro maltratado.
Rendida a tamanho paio, cantarola a tribo agitando tachos.

Ora, na santa terrinha, garantem os entendidos que a peleja se modernizou, reivindicando estatuto de vanguarda: - engalanaram-se arenas de lustre a preceito, amestraram-se as tácticas, empresários credenciam artistas e napoleónicos generais projectam os pontos primeiro que os tentos porque, no cálculo, são os números que alimentam a bolsa e não os frémitos de redes tontas.

E o Zé, se bufa olhando a carteira mirrada de taco, logo enfuna a paixão, largando o pilim que o espectáculo promete.

Ai promete, promete…

É vê-los então à escovinha, de trança esticada ou poupa colorida, senão mesmo de tola rapada, imperialmente garbosos na fibra vitaminada.

Para a história decantaram-se a tamancada e a farpela enrugada. A fatiota reluz em fina costura e até as cores acompanham os ditames da moda. E, neste dinamismo, os andamentos requerem pumas, adidas e outras biqueiras, sendo que as guitas já aguardam registo de marca.

Sem dúvida, um esplendor na relva a reclamar nova e aprimorada versão, desde logo candidata a todos os Óscares.

Pois claro! E o coiro redondinho?
Qualquer semelhança só na forma: - sem pinta de vestígio animal e untá-lo com vela de sebo nem pensar!
O danado, a milagrosos transplantes sujeito pela mais avançada tecnologia, imitando atributos de refinada silicone, exibe-se rechonchudo, desafiando as capacidades de qualquer biqueira para lhe estoirar o verniz ou as estrias.

E logo as claques agigantam-se, gritam outros amores e ali finta o artista que corre, mais além finta-se, senão quando a todos finta, rebolando-se…
Perante impropérios bacocos, pateadas e outras vilanias, alguns predestinados mandam calar a plateia, havendo mesmo os que, na tesura do ego, disparam o dedinho, qual soberbo falo a emprenhar o ar.

Publicitando a ERA, moderna e atractiva, anda o homem do apito, de bandeira em riste os tira-linhas.
Palmas a tais figuras são expressamente proibidas, valendo apenas elogios à maternidade, o sorriso malandro e o alvitre para uso de óculos com telescópio e mira. Apesar do luxo, pena que a tecnologia ainda não se preocupe a satisfazer tal devaneio.

No ambiente que aquece, o espectáculo não acaba sem ensaio de comício: - flamejam discursos, disputam-se razões e, furtiva ou ousadamente, acontece a batatada. São os momentos de patética glória.

Ao dissipar-se a refrega sob a fumaça que vagarosamente se eleva, eis que redes se agitam, não de frémito, mas sim tontas a suspirar pelo dia em que irão saciar-se na beijocada com o rechonchudo coiro.

Já agora, a pretexto do alfinetado intérprete, o escrivão da crónica vai cogitando que o citado, inábil a assimilar requintadas guloseimas, é bem capaz de continuar enamorado pelo bacalhau dos Magriços ou, quando a crise aperta, de privilegiar o vulgar tremoço dos Patrícios.

César Brandão - 27.10.2006

quarta-feira, outubro 25, 2006

GURUÉ - Cantos e Encantos

Selecção de imagens que integram o álbum


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quarta-feira, outubro 18, 2006

GURUÉ - Memórias Na Paisagem

Situada na Alta Zambézia, a região do Gurué exibe uma paisagem profundamente marcada pela cultura do chá, implantada em superfícies onduladas dos relevos suaves e periféricos do sistema montanhoso envolvente, dotado de afloramentos rochosos dominantes, atingindo a máxima expressão no Namuli, com 2.419 metros de altitude.

A cultura do chá foi introduzida em Moçambique nos primórdios do século passado, sendo responsável pelos primeiros ensaios a Empresa Agrícola de Lugela, localizada na zona fronteiriça de Milange.

Perante os promissores resultados, foi encetado o fomento da cultura em regiões com condições de altitude e de precipitação favoráveis, operando-se a sua expansão, para além de Milange, nas áreas de Gurué, Tacuane e Socone.

O êxito alcançado com a adaptação da cultura no Gurué determinou um progressivo crescimento da área plantada, responsável por uma galopante mudança da paisagem, guindando a região para um protagonismo paisagístico de eleição e uma vitalidade económica do sector do chá sem precedentes em Moçambique.

Nomes como Junqueiro, Felizardo, Farinha, Ribeiro ou Duarte, entre outros, identificam figuras que marcaram o tempo desta gesta pioneira que da memória se sorve quente, bem quente, na justa dimensão da grandeza dos sonhos e da nobreza da obra.

Cumpre pois à narrativa, na força da sua autenticidade, como é o caso de Coisas Novas de Sempre, elucidativo texto em tempos escrito por Maria do Carmo Abecassis, perpetuar a imagem daqueles que a morte suplantaram.

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COISAS NOVAS DE SEMPRE

  • Os países, para além dos padrões lançados às margens recém-descobertas, dos acordos e contratos entre governantes e das linhas teóricas traçadas na tortuosidade dos mapas, são essencialmente no começo a obra de um punhado de homens que consumaram a posse pela coragem e força de vontade na luta contra o desconhecido. Temos os bandeirantes no Brasil, os pesquisadores do ouro e os conquistadores do «Far-West» americano, os Boers na África do Sul, os pioneiros que em todo o mundo se lançaram à descoberta e reconquista de terras já suas, selvagens, incultas e inóspitas, metendo ombros à árdua tarefa de concretizar e selar a posse, na busca de promessas de riqueza e fecundidade.

  • Cada grão de terra, uma gota de suor e um acto de fé.

  • Moçambique teve os seus pioneiros e desbravadores, homens cuja história é quase totalmente ignorada. Eu tive a sorte de conhecer um desses homens (os outros que me perdoem).

  • Foi no Gurué. Prefiro Gurué a Vila Junqueiro. Gurué, um nome que canta, como as suas quedas de água na rocha bruta da montanha.

  • Uma casa de terra batida, sem alicerces nem infra-estruturas mas com uma inesperada grandiosidade, construída pela força de vontade na ausência de quaisquer ajudas ou conselhos técnicos, predestinada a cair mas milagrosa e orgulhosamente de pé, ao fim de cinquenta anos de existência. Rodeada de velhíssimos eucaliptos e carvalhos que parecem sentinelas adormecidas no tempo. Pousada a centenas de metros de altura e virada para o vale que se perde em verde na distância. Como que erguida na calma certeza do raiar do sol em cada manhã.

  • Para trás, contra a serra, as capoeiras, as flores e os pássaros. E um criado...rendeiro. Um negro grande e sólido, já não muito novo, sentado num banco baixo, à sombra das árvores e na chilreada dos pássaros, a fazer croché. A renda que se desenrolou ao longo dos anos, para o bragal da casa, o enxoval do casamento, o berço dos filhos, a expectativa dos netos. (Este flagrante contraste com os nossos ridículos preconceitos machistas ocidentais, sobretudo latinos, fez-me sorrir). Um homem a fazer renda. Não me pareceu menos homem por isso.

  • Nos primeiros momentos de entrada na sala, vasta e com um pé direito alto, de encontro à tristeza de um luto recente, a morte da dona da casa, fez-se um silêncio embaraçado, um grupo de gente nova e um homem envelhecido pela doença e pelo desgosto.

  • Fui ter com ele à janela, aquela indescritível janela aberta sobre as mil pinceladas de verde dos jardins suspensos do chá, o verde-claro em que os rebentos cresciam, o verde-escuro onde as folhas tenras já tinham sido colhidas, os grupos de trabalhadores com os típicos cestos às costas, estátuas belas e seminuas de cobre reluzente de suor no reflectir do sol que já descia no horizonte, as nuvens vestidas de arco-íris, sinfonia vibrante de cores, do rosa ao cor de fogo, do branco de neve ao amarelo ouro, no fundo turquesa daquele céu africano. Africano?...As montanhas abruptas e erguidas em volta lembravam Alpes suíços ali colocados por engano, em terras de África. E todo esse mar de verde aos nossos pés, cortado por longas e assimétricas filas de acácias menstruadas, no sangue vermelho vivo da sua plena floração.

  • E com este pano de fundo, ele falou. Com a maior simplicidade contou como ele e dois amigos tinham arrancado cada palmo de terra à caça grossa e ao capim para plantar o chá até onde o clima de altitude o permitira. Longos anos de esforço. Trabalho duro e sem descanso. O fruto de uma vida. Onde o amor àquela terra crescera e criara raízes em cada pé de chá que fora, um a um, plantado com aquelas mesmas mãos que eu via à minha frente estremecendo de emoção na memória tão recente do passado. A ida à sua aldeia perdida em Trás-os-Montes para casar com a noiva predestinada. O amor que os unira, os filhos que nasceram e morreram dos quais apenas um sobreviveu, as alegrias e os fracassos de uma luta sem tréguas. Mas uma luta compensadora, com frutos à vista. A morte da mulher pioneira, companheira fiel e constante de uma obra começada. E espalhados pelas serranias, como tive ocasião de ver, os vários familiares, chamados pouco a pouco para o ajudarem, os mesmos olhos azuis, a mesma hospitalidade simples do pão acabado de cozer e do queijo caseiro postos em cima da mesa, no mesmo sorriso confiante de quem sabe o que quer e o que está a fazer. De quem sabe que está a construir o futuro com as mãos, um futuro que está ganho se depender exclusivamente da abnegação, coragem, desprendimento e trabalho incessante, espírito de sacrifício nascido no intrínseco amor à terra, o mais velho e nobre sentimento humano.

  • Que esta seja a minha homenagem póstuma a um Homem, com letra maiúscula, um dos fundadores do Moçambique de hoje.

  • Grande na sua humildade, porque só as almas grandes sabem verdadeiramente ser humildes.

À memória de Américo Colaço Felizardo, por Maria do Carmo Abecassis


Aflora a montanha, grandiosa em suas cristas que desafiam conquistar os céus, libertando adejos de canoros cânticos, sinfonia única na natureza que respira recantos sagrados do povo Lómwe. Do seu seio despertam águas que se precipitam na aventura do leito para demoradas viagens, esculpindo fragas nas suas quedas.


E à lonjura desta Zambézia, maior e mais alta foi a caminhada daqueles que outrora a demandaram. Arroteando faldas de vermelho tingidas, alicerçaram então o plantio da camélia verdejante que urde a folha do excelso chá.


Imortaliza-se agora a paisagem em deslumbramento da vista pela magnificência do verde que ondula por outeiros que desfilam em gala quase secular, e onde mãos ágeis mutilam tenros brotos que as estações do tempo renovam.

Na apoteose de colheitas lacrimeja a seiva afagando feridas que se querem saradas. E na profunda suavidade do silêncio solta-se a rima que embala momentos de êxtase.


César Brandão – 18/10/2006

terça-feira, outubro 10, 2006

PUXA VIDA!

O sentimento africano que orgulhosamente transpiro suscita-me a obrigação de melhor compreender tantos percursos projectados em cenários à margem da ribalta e, mesmo assim, quantos deles eivados de altruística luta, merecedores pois de reflexão e apreço.
E porque a fortaleza do espírito assenta também na prevalência dos valores cultivados no supremo teatro em que se protagoniza a vida, da costa que respira chuabo à lomué montanha peregrino o meu fascínio pelas terras da Zambézia onde testemunhos intocáveis, arduamente talhados pelo estoicismo humano, moldaram identidades a determinar admiração.
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domingo, outubro 08, 2006

QUELIMANE À BARRA - vista aérea


Descolar do aeroporto de Quelimane e subir aos céus da Zambézia, seguindo a costa do Índico, representava sempre uma soberba oportunidade para desfrutar de uma paisagem invulgarmente bela, decisivamente marcada pelo majestoso delta do Zambeze e por um grandioso e luxuriante reino de palmares.

sábado, setembro 30, 2006

MEMORIAL DE QUELIMANE: I - Rio dos Bons Sinais


E foi que... passada a costa de Sofala, ora afoita em mar alto toda a armada, o leve leme de cada nau a proa inclinou, alvoraçando-se o coração já desesperado e que tanto fiou dum fraco pau:
- lá, aonde a terra bem se avistava, um rio saía ao mar aberto, havia pessoas que sabiam navegar... fluindo sinais que fortaleceram a esperança imensa de achar a rota certa para a Índia.

E assim, em 1498, Vasco da Gama aportou a esta terra erigindo um padrão, e o rio se consagrou dos Bons Sinais pelas novas inspiradas.


Navegar ao longo das cerca de dez milhas que separam a cidade de Quelimane da embocadura do rio dos Bons Sinais significa ainda uma oportunidade para observar vários vestígios do passado, eloquentemente narrados por penas doutas. O percurso desenvolve-se por canais arquitectados pelo arbítrio indomável dos fluxos e refluxos de águas cálidas, sendo marginados por mangais que povoam áreas onde a natureza prodigaliza cenários de altiva opulência. Deleita-se a vista com a rude beleza que impressiona, à míngua do engenho que no negro húmus se atola.
E ali, ao desfazer da curva, onde todas as águas ainda namoram, espraia-se o estuário que beija a cidade que lhe sorri.


Viajo no tempo para a outra margem... aonde o Carungo, aqui ainda convertido em agreste paul, apenas cedeu aos pioneiros a dura gesta de rectilínea picada, perdendo-se no horizonte os altaneiros espiques na terra firme do lendário prazo.


Alvorece já e o ronceiro machibombo anuncia a sua chegada à adormecida Recamba. Contemplo o manto espesso e húmido a dissipar-se, entreabrindo o rio e despindo a cidade, formosa e sem traços de vergonha para esconder. Junto à rampa, o murmúrio chuabo das gentes que esperam precipita-se para o vetusto gasolina que acosta... e vou a reboque antes que se faça tarde!
Num volúvel giro logo a proa fende as águas seguras, prenhes de maresia índica. Ao largo, entregue aos desígnios da fortuna e da generosidade do rio, o pescador ensaia destrezas no manejo da almadia, cuidando de recompensas no dia que vai crescendo.
E na travessia, tida por breve, liberta-se a alma que voa sôfrega ao encontro do lugar que ainda não perdeu no presente a História de vista.


Porque é... que assim continue a ser!

NOTA: - No livro TOBIAS, a personagem Gabelo vivia em Rages, cidade dos medos, sendo relatado que Tobias colocara à sua guarda a importância de dez talentos de prata. Anos depois, S. Rafael foi o arcanjo que guiou o seu filho, também chamado Tobias, na missão de recuperar esse pecúlio.

quinta-feira, setembro 14, 2006

AURORA EM INHASSUNGE... (ou um certo elogio do passado)


A minha expressão da alma flutuando no tempo, como se fosse num amplo rio, ancora em Inhassunge, um lugar situado na margem onde repousam parte das próprias raízes e que, ao interpretá-la, a faz fluir contemplativa.

A aurora acolhe o momento e celebra-o iluminando o início de tudo. Ao longe reflecte-se a nascente que alimenta uma cultura marcada por forte compreensão pela sua origem e que, paulatinamente, vai acentuando um distanciamento das que, na outra margem posicionadas, em absoluto protagonizam a rejeição de todo e qualquer legado.

E assim, AURORA EM INHASSUNGE não é apenas um refrescante reencontro que o imaginário desvenda – no caudal das emoções palpita também um sentido elogio do passado.

terça-feira, setembro 12, 2006

SOBRE O PAQUETE MOÇAMBIQUE - ( Parte II )

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Entretanto, pesquisando na INTERNET, algumas referências alusivas a este paquete foram encontradas. A seguir identifico as descrições que considero mais sugestivas:

  • Em MEMÓRIAS 1, Telémaco A. Pissarro, evocando a viagem do início do seu desígnio africano por terras de Angola, assim descreve:
    (…)
    Embarquei em Junho de 1951 no navio Moçambique rumo ao Lobito. A terceira suplementar era no porão abaixo da linha de água junto das viaturas dos passageiros, separados apenas por um separador de rede de arame forte. Dormíamos em camaratas e beliches. Logo à saída da barra o mar estava com muita ondulação e o pessoal enjoou vomitando. Na camarata havia um cheiro a vómito desagradável. Um angolano preto que estava por baixo da minha cama até chegou a vomitar sangue.
    Chegados à Madeira, saí para apanhar um pouco de ar fresco e tomar algo que me confortasse. Quando coloquei os pés em terra pareceu-me que ela se movia debaixo de mim. Foi uma sensação desagradável mas passageira. Tomei um chá numa esplanada e voltei para bordo um pouco mais confortado. Daí para a frente o mar esteve sempre calmo. Passou o enjoo e, por isso, tive oportunidade de contemplar e apreciar a sua beleza que nunca tinha visto tão de perto. Fiquei fascinado mas mal sabia eu que alguns anos mais tarde iria conhecer tão de perto o que ele tinha de deslumbrante no seu seio, praticando caça e fotografia submarina!
    O barco fez escala em S. Tomé ficando ao largo. Fomos a terra num barcaça. Foi a primeira vez que tomei contacto com gente africana. Francamente gostei. Quando regressámos a bordo trazia um cacho de bananas que tinha comprado mas ainda estavam muito verdes e não fazia sequer ideia de que não amadureceriam quando chegasse ao Lobito. Não amadureceram mesmo e ficaram para os amigos que seguiam para Moçambique. (...)

    Outro registo curioso, se bem que desagradável, evoca uma associação atribuída ao navio na difusão da pandemia da gripe asiática, ocorrida em 1957. Na enciclopédia livre WIKIPÉDIA encontra-se assinalado:
    (…)
    A epidemia de 1957 entrou em Portugal por via marítima, através dos passageiros do navio Moçambique, vindo de portos africanos, onde grassava a gripe. Embora os tripulantes tivessem desembarcado no dia 7 de Agosto em Lisboa, foi em fins de Setembro que a doença adquiriu carácter epidémico, atingindo o seu máximo em Outubro. (...)

    Por fim, sendo certo que este paquete integrou a frota da antiga Companhia Nacional de Navegação e o seu ciclo marítimo decorrido no período de 1949 a 1972, a descrição abaixo que encerra este trabalho, igualmente de contornos dramáticos, faculta um implícito conhecimento de que, afinal, o Moçambique teve um antecessor.
    Assim, em MEMÓRIAS ULTRAMARINAS, de Virgínia Cabral Fernandes, nos parágrafos que respigo pode ler-se:

    (…)
    Quero ainda falar da viagem anterior à última da qual já falei. Foi no fim da Primeira Grande Guerra, de 1914 a 1918. Foi uma viagem terrível. Partimos da Ilha de Moçambique, no paquete Moçambique declarara-se a pneumónica e todos os dias morriam passageiros e tripulantes. Minha mãe contava que já não havia pessoal nem cozinheiro. Era um «salve-se quem puder». Os passageiros tinham de fazer a própria comida. Éramos, na altura, oito irmãos. Minha mãe fechou-nos no camarote e levava lá a comida que confeccionava na cozinha. Já não se faziam caixões nem cerimónias fúnebres. Os corpos eram lançados ao mar, embrulhados em lençóis.
    Quando passámos a Ilha da Madeira o comandante reuniu todos os passageiros mais categorizados que iam a bordo para decidir a rota a seguir pelo barco: irem pelo caminho mais longo, para fugir ao submarino alemão que estava em luta com o caça-minas da marinha portuguesa, o Augusto de Castilho, comandado pelo valente oficial de marinha português Carvalho de Araújo, que morreu em combate, tendo sido substituído, pelo segundo-comandante, tenente Ferraz, outro valente. Conheci este oficial, já almirante, quando esteve chefe do departamento marítimo em Luanda. Foi decidido seguirem pelo caminho mais curto e atravessar em velocidade a zona de combate, pois a situação a bordo, a morrer tanta gente, era insustentável.
    Chegados a Lisboa, onde já grassava a pneumónica, o delegado de saúde ordenou que o barco ficasse de quarentena. Quando entrou a bordo foi recebido à batatada pelos passageiros e ninguém obedeceu à ordem, desembarcando todos e correndo para as famílias, que os esperavam no cais. Minha mãe contava que um senhor que entrara na Ilha de Moçambique, com a mulher e três filhos, chegou a Lisboa sozinho. O infeliz agarrou-se às mãos de minha mãe e, a chorar, felicitou-a por ter chegado ao fim da viagem com o marido e os filhos todos. (...)
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segunda-feira, setembro 11, 2006

SOBRE O PAQUETE MOÇAMBIQUE - ( Parte I )


À semelhança de muitos outros, também meus pais rumaram a África. Assim, Moçambique, no final da década de 40 do século passado, foi o destino para uma permanência por terras da Zambézia que perdurou até 1974, tendo esta vivência determinado o nascimento de todos os filhos em Quelimane.

Na época, as raras vindas a Portugal aconteceram apenas para gozo dos períodos de férias, por regra com um intervalo de frequência nunca inferior a quatro anos.

Até meados dos anos 60 as viagens foram invariavelmente efectuadas por via marítima, circunstância que possibilitou uma identidade com alguns dos paquetes que então operaram nessas rotas.
Ainda de tenra idade viajei no Pátria e no Império pelo que, naturalmente, não retenho qualquer registo desses acontecimentos. Entretanto, em 1958, e praticamente a concluir 7 anos, faria aquela que até ao presente se constitui como a minha última viagem marítima: - a bordo do paquete Moçambique rumei ao continente onde iria iniciar a minha formação escolar e o primeiro longo período de ausência da terra que me viu nascer.


As particularidades deste episódio relevam um sentimento especial que sempre me ligou a este navio, razão porque aqui o trago à memória dedicando-lhe, mesmo que negligenciado no tempo, o testemunho que passo a relatar:

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Praticamente há cerca de um mês que o menino viajava e, feliz, já considerava aquele belo navio como seu.
Quanto mar navegado e quantas terras observadas?! Ao certo não tinha mesmo uma noção exacta, mas isso pouco ou nada representava no seu íntimo.
Começava sim a estranhar a ausência dos coqueiros e dos aromas de copra em madrugadas de cacimbo. E, de quando em vez, interrogava-se: - será que lá no palmar o batuque continua a rufar?
Mas logo o pensamento regressava a bordo, saboreando então muitas das peripécias e brincadeiras que foram acontecendo nos últimos dias. E revia ainda aquela tarde em que a gente adulta organizou umas provas engraçadas para a miudagem participar – por umas horas, que protagonismo teve a pequenada!


Só ainda não se conformava com o desempenho desajeitado e pouco conseguido naquela complicada corrida de saco. Na verdade, pouco faltou para os trambolhões terem sido tantos quantos os saltos dados. E matutava porque é que as meninas foram tão exuberantemente ágeis e expeditas, acabando por ganhar a maioria das provas – hum, será que antes passaram grande parte do tempo só a treinar?

Na calmaria do oceano tudo parecia remanso e nesses momentos gostava de se aproximar da amurada contemplando, embevecido, o suave e gracioso deslizar do navio. Por vezes, também o mar mostrava-se zangado e, com tanta agitação das ondas, o Moçambique balançava, só que o menino não se afligia – tinha aprendido já a confiar cegamente no seu paquete. Por isso, não compreendeu lá muito bem aqueles exercícios de salvamento, com coletes e tudo, bem perto daqueles barquitos suspensos.


Logo nos primeiros dias ficara surpreendido com a grandeza da sala de refeições. Mas ouvir dos pais, diariamente, as mesmas recomendações sobre a postura e o comportamento a ter à mesa tinha-se tornado um aborrecimento. E, quanto ao pequeno-almoço, não morria muito de amor pelo petisco – faltava o bifezinho e a batata frita da sua terra. Como para grandes males grandes remédios, enchendo-se de ousadia, não descansou até ficar amigo do mestre cozinheiro. Então sim, as escapadelas à cozinha passaram a ritual que adorava cumprir e o mestre era mesmo um grande amigo.

E chegou o momento em que os pais avisaram: - chama o teu irmão para te ajudar a arrumar os brinquedos no saco. Amanhã vamos desembarcar em Lisboa.
Já a noite tomara forma quando luzes cintilando à distância denunciavam terra próxima. O navio, acercando-se lentamente, acabou por se imobilizar ao largo, numa baía feérica. Em poucos minutos muitas barcaças acostavam e, num ápice, o convés transformava-se em feira, tanta era a quinquilharia exposta. Outros barquitos vogavam em redor e a cada moeda lançada à água havia sempre alguém que mergulhava. Excitado, o menino rejubilava já com aquele cenário mas, tal como começara, todo o rebulício cessou em pouco tempo e o Moçambique zarpou, retomando a sua rota.
Antes de adormecer, quis então saber o nome daquela terra. Disseram-lhe que era a ilha da Madeira e que acabava de estar na baía do Funchal. E o menino sonhou com uma ilha encantada e sempre em festa.

Ao acordar, pela primeira vez sentia-se mal disposto. Uma turbulência estranha, quanto excessiva, ia provocando alguma inquietação, logo agora que estava prestes a chegar a Lisboa. Quando teve oportunidade, timidamente assomou ao convés e conteve-se, perplexo, ao observar que naquela manhã ensombrada um mar encapelado afoitava o navio. Num vaivém esquisito, tão depressa a proa se erguia como se afundava em demasia. Também céleres vagas chocavam violentamente no costado, até parecendo que queriam tomar de assalto o paquete.

Contrastando com a crispação latente nos rostos de alguns passageiros, junto à amurada vários elementos da tripulação não disfarçavam a sua descontracção e, jocosamente, até teatralizavam em jeito de rima:

Que tareia Moçambique
Com este danado mar
Ainda não foste a pique
Mas a onda quer te virar

E logo um, elevando mais a voz, profetizava: - olha que grande a que lá vem! É ela que o vai voltar…

Confuso com os antagonismos de espírito que presenciava, resolveu regressar ao camarote para desabafar com a mãe. Naquela escadaria, todos os dias trilhada, fez então a sua prova mais rápida – tropeçando, rolou pelos degraus num abrir e fechar de olhos!

Mas sempre houve dias com sorte – o menino não se magoara e na crescente acalmia irrompeu, como se fosse um grito guerreiro, aquele silvo forte, triunfal, que lhe era tão familiar e que já andava a imitar. Gaivotas no ar davam as boas-vindas e, serenamente, se bem que todo transpirado, o Moçambique navegava agora no Tejo, prestes a cumprir mais uma missão.

Ao sair do cais, contemplando o navio em repouso merecido, num aceno furtivo e com um olhar triste, o menino despediu-se para sempre do que já era o seu grande herói no mar.

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domingo, setembro 10, 2006

DE MIM PARA MIM


As árvores crescem belas,
Esperam sempre a Primavera
Para transmitir o sentir
Do que importa viver;
Tão áureo é o seu equilíbrio
Que alguém registou um dia:
"Mesmo quando morrem
Não deixam de estar em pé".

Confesso que a coabitação com as memórias da adolescência tem constituído um exercício com acrescida relevância. Uns logo retorquirão que se trata de ocupação inútil em mente vã, outros ainda irão advogar que sintomas de senilidade estão perigosamente a minar meio século de vida entretanto vencido. E, reconheço, todos sustentarão razões iniludíveis sobre os méritos do comportamento perfilado no hoje e no amanhã – abençoadas mentes que, por vezes, até induzem a crer que o céu deixou de ser o limite.
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