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sábado, outubro 28, 2006

O COIRO REDONDINHO


O cenário repousa nos tempos idos e – vá lá saber-se porquê – alfinetou o intérprete, então destemperadamente suspenso em bazófia arregaçada, insinuando artifícios para pelejar o coiro redondinho. Porventura ofendido, ou a lamentar que até uma forma quadrada não merecia o rude pontapé de tamanco tão tosco, escapa-se o dito em desatinado voo.
Na sua trajectória, aflito, encolhe-se o adversário. Colegas de armas petrificam-se com a facécia e o homem do apito, de ganga camuflado, interroga-se que raio de disputa arbitra.
O guardador de redes, distraído a perscrutar o Mondego que, indiferente, ao lado voga mais interessado em refrescar amores no Choupal, já tarde desperta para o projéctil a ziguezaguear em fúria. E sente o frémito de redes agitadas amparando, finalmente, aquele coiro maltratado.
Rendida a tamanho paio, cantarola a tribo agitando tachos.

Ora, na santa terrinha, garantem os entendidos que a peleja se modernizou, reivindicando estatuto de vanguarda: - engalanaram-se arenas de lustre a preceito, amestraram-se as tácticas, empresários credenciam artistas e napoleónicos generais projectam os pontos primeiro que os tentos porque, no cálculo, são os números que alimentam a bolsa e não os frémitos de redes tontas.

E o Zé, se bufa olhando a carteira mirrada de taco, logo enfuna a paixão, largando o pilim que o espectáculo promete.

Ai promete, promete…

É vê-los então à escovinha, de trança esticada ou poupa colorida, senão mesmo de tola rapada, imperialmente garbosos na fibra vitaminada.

Para a história decantaram-se a tamancada e a farpela enrugada. A fatiota reluz em fina costura e até as cores acompanham os ditames da moda. E, neste dinamismo, os andamentos requerem pumas, adidas e outras biqueiras, sendo que as guitas já aguardam registo de marca.

Sem dúvida, um esplendor na relva a reclamar nova e aprimorada versão, desde logo candidata a todos os Óscares.

Pois claro! E o coiro redondinho?
Qualquer semelhança só na forma: - sem pinta de vestígio animal e untá-lo com vela de sebo nem pensar!
O danado, a milagrosos transplantes sujeito pela mais avançada tecnologia, imitando atributos de refinada silicone, exibe-se rechonchudo, desafiando as capacidades de qualquer biqueira para lhe estoirar o verniz ou as estrias.

E logo as claques agigantam-se, gritam outros amores e ali finta o artista que corre, mais além finta-se, senão quando a todos finta, rebolando-se…
Perante impropérios bacocos, pateadas e outras vilanias, alguns predestinados mandam calar a plateia, havendo mesmo os que, na tesura do ego, disparam o dedinho, qual soberbo falo a emprenhar o ar.

Publicitando a ERA, moderna e atractiva, anda o homem do apito, de bandeira em riste os tira-linhas.
Palmas a tais figuras são expressamente proibidas, valendo apenas elogios à maternidade, o sorriso malandro e o alvitre para uso de óculos com telescópio e mira. Apesar do luxo, pena que a tecnologia ainda não se preocupe a satisfazer tal devaneio.

No ambiente que aquece, o espectáculo não acaba sem ensaio de comício: - flamejam discursos, disputam-se razões e, furtiva ou ousadamente, acontece a batatada. São os momentos de patética glória.

Ao dissipar-se a refrega sob a fumaça que vagarosamente se eleva, eis que redes se agitam, não de frémito, mas sim tontas a suspirar pelo dia em que irão saciar-se na beijocada com o rechonchudo coiro.

Já agora, a pretexto do alfinetado intérprete, o escrivão da crónica vai cogitando que o citado, inábil a assimilar requintadas guloseimas, é bem capaz de continuar enamorado pelo bacalhau dos Magriços ou, quando a crise aperta, de privilegiar o vulgar tremoço dos Patrícios.

César Brandão - 27.10.2006

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