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sábado, setembro 26, 2009

ZAMBEZE - construção da nova ponte

A nova ponte sobre o rio Zambeze, iniciada em Dezembro de 2005, foi seguramente uma das obras de engenharia mais importantes concretizada em território moçambicano e, bem assim, em todo o continente africano.
Após cerca de três anos e meio de persistentes e apurados trabalhos, afrontados até por dois episódios de inoportunas cheias, o engenho humano conseguiu disponibilizar a obra que colocou um ponto final no estrangulamento de décadas na travessia do rio Zambeze, permitindo finalmente unir o sul e o norte de Moçambique por uma passagem segura e moderna.
A inauguração da ponte ocorreu a 1 de Agosto de 2009, ficando a designar-se por Ponte Armando Emílio Guebuza.
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terça-feira, junho 30, 2009

MEMORIAL DE QUELIMANE: VI - Ponte das Tormentas

À data de 1925, na obra "Terras de África - Moçambique e Rand", no capítulo dedicado à Société du Madal, Pedro Muralha descreve o episódio a seguir:

Quiseram os srs. Perpigná e Alexandre Magno mostrar-nos um trabalho formidável, levado recentemente a efeito. Consiste esse trabalho num canal com 8 quilómetros que, partindo do rio Macanga, subisse até à estação agrícola de Zalala, para transporte da sua copra para Tangalane.
Nunca por ali navegaram outras embarcações que não fossem escaleres ou grandes almadias. Resolveram pois os nossos companheiros inaugurar o canal, fazendo descer por ele um gasolina. E depois de almoçarmos partimos para o citado canal, onde de facto o gasolina nos esperava.
Eram 17 horas quando começámos a descer. É, de facto, um trabalho formidável. Tem esse canal seis metros e meio de largura e é bastante profundo. A meio do caminho, porém, o motor da embarcação teve uma «panne», e ali ficámos durante o resto da tarde esperando que o motor fosse reparado. Mas impossível. O que fazer em tais condições?
Era impossível saltarmos para terra, visto aquela região estar debaixo da água das últimas cheias. Apelámos para o último recurso. Ordenámos que dois pretos conduzissem a barca a remos, canal abaixo.
E assim se fez. Mas quando entrámos no rio Macanga a força da corrente era tão impetuosa que, tomando conta do barco, levou-o rio abaixo com tamanha velocidade que o leme era impotente para lhe dar direcção. E, ao «Deus dará», viemos à mercê da corrente, passando por debaixo de salgueiros e galgando sempre, como se pretendêssemos alcançar o oceano com a velocidade do relâmpago.
A noite estava escuríssima. E só víamos o perigo quando se abria a luz dos relâmpagos, anunciando-nos uma próxima tempestade.
O que será de nós? Onde iremos parar?
E foi ainda à luz rápida de um relâmpago que vimos uma grande ponte que a Société du Madal mandara construir sobre o Macanga. É uma ponte que mede 65 metros de comprido e está assente sobre grossos barrotes de madeira.

O barco, porém, devido a um redemoinho, atravessou-se no rio, uns 4 metros antes de chegar à ponte citada, e com rapidez, como se fora um sopro, a corrente do rio arremessou-o contra os referidos barrotes com tal violência que se sentiu a ponte estremecer.
Só tivemos tempo de nos agarrar com toda a nossa energia às pranchas da ponte.
Estabeleceu-se um verdadeiro pânico e só nos víamos uns aos outros quando novo relâmpago vinha tornar ainda mais tétrica esta cena.
- O melhor é não nos precipitarmos – gritámos.
Então o sr. Perpigná tomou a direcção dos trabalhos de salvamento.
Ordenou que, com o auxílio dos nossos braços, fizéssemos conduzir o barco para fora da corrente que, de momento para momento, mais aumentava de impetuosidade.
Trabalho difícil. Os barrotes têm grandes escoras e o barco encalhava nelas.
Tivemos pois, com toda a nossa violência e com receio do barco se voltar e irmos todos corrente abaixo, de afastar o gasolina dos barrotes e só depois de um grande, de um infindável quarto de hora, vimos que o perigo havia passado, visto sairmos fora da corrente do rio. Dois possantes pretos saltaram à água e conduziram-nos às costas para cima da ponte.
Estávamos todos salvos.
Daí a meia hora, quando nos apanhámos em casa, estávamos como doidos de alegria, dessa alegria de viver.
- Venha mais «whisky», mais «whisky».
E Alexandre Magno pôs sobre o gramofone o disco «O vira do Minho». Todos cantámos, dançámos, pulámos sob essa sensação que sempre se sente após os grandes perigos.
E ficou convencionado dar-se à ponte, tão sinistra como salvadora, o nome de «Ponte das Tormentas».


Em 1957, com a tenra idade de 6 anos, tive a oportunidade para conhecer esta ponte, de passagem obrigatória para alguns convívios domingueiros que os meus pais regularmente mantiveram com o casal Leão, pais dos manos Vasco e Judite, na altura residentes na estação agrícola de Palane.
Conforme testemunhos familiares, à referida ponte frequentemente acostavam batelões para o transporte da copra oriunda das estações próximas sob gestão da Madal.
Porém, tal prática teve o seu epílogo por volta de 1960. Num dos habituais carregamentos o Macanga fez questão de evidenciar diabruras antigas, só que então os desgastados pilares já não suportaram os violentos abraços dos batelões e a ponte sumiu-se de vez.

César Brandão - 30.06.2009

domingo, maio 31, 2009

RECORDANDO MONTE TUMBINE: - a "ira do dragão"

Em 1998, cerca de 150 mil habitantes da cidade de Milange, na província da Zambézia, entravam em pânico, ao assistirem, sem que nada pudessem fazer, à “revolta do dragão”, no monte Tumbine. Segundo dados colhidos na altura, os habitantes de Milange diziam que isto tinha que acontecer um dia, “andaram a cortar o cabelo do dragão até que ele se revoltou”.

A “ira do dragão”, que se manifestou a 19 de Janeiro de 1998, com chuvas torrenciais e vento forte, durante três horas, deu origem a resultados catastróficos: 73 mortes confirmadas, mais de uma centena de desaparecidos, 7500 pessoas desalojadas, 1325 machambas destruídas, 200 casas reduzidas a escombros e o aluimento de uma parte significativa da zona montanhosa.

Foi uma das maiores tragédias ambientais do continente africano, nas últimas décadas. Com mais de mil metros de altitude, o monte Tumbine nunca foi olhado como um bem perecível. Antes pelo contrário. Primeiro foram as plantações de chá que, no início do século passado, deram a fama à cidade, que se manteve até aos anos 50. Depois foi a guerra civil, que levou uma percentagem significativa da população de Milange a refugiar-se no monte, em busca de segurança e de espaços para o cultivo de bens de primeira necessidade.

Numa encruzilhada cultural, um missionário local adianta a explicação das causas do desastre ecológico e das consequências trágicas do aluimento do monte: “Isto foi a cobra Napolo, que ocupa os buracos deixados na serra pelo arranque das árvores. A cobra Napolo tem sete cabeças e saiu da água porque já não existem praticamente árvores nas margens dos dois rios: Melosa e Ruo.”
A catástrofe poderia ter sido ainda de maior dimensão se os aluimentos mais fortes tivessem ocorrido do lado da cidade: “Felizmente, os maiores aluimentos tiveram lugar no lado oposto”.

As pedras, de tamanho superior à altura de um primeiro andar, rolaram pelas vertentes da serra; a violência da chuva transformou pequenas ribeiras, com pouco mais de um metro de largura, em leitos de rio com 20 a 50 metros de largura. Foram três horas vividas de forma tão intensa que levaram o presidente do Conselho Municipal a não ocultar a emoção e a confessar ter apanhado o maior susto da vida: “As pedras vinham umas atrás das outras fazendo clarões. Era assustador! Alguns diziam que era o dragão a lançar chamas; outros julgavam que era a cobra Napolo.”
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quinta-feira, abril 30, 2009

COSTUREIROS NA ZAMBÉZIA

Artífices de corte e costura, são figuras singulares que um pouco por toda a Zambézia laboram com mãos destras.

A oficina apronta-se em qualquer ponto e o equipamento denota lustre de verdadeira relíquia, no fundo também sinónimo de que a vocação foi apurada ao longo de muitos e esforçados anos.
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segunda-feira, março 16, 2009

FILHOS DA MONTANHA

Habitando no norte de Moçambique, os macuas ocupam uma área próxima dos 200 mil quilómetros quadrados e a sua chegada remonta ao século XI, fruto das migrações dos povos bantos.
Entretanto, desde sempre movidos por uma crença inabalável, os macuas consideram-se filhos da montanha, assim remetendo as suas origens para o monte Namuli – Miyo Kokhuma o Namuli (fui gerado no monte Namuli) é uma citação frequente, identificando inequivocamente o mito das origens.
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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

LAGOA AZUL EM NICOADALA

Nicoadala é passagem obrigatória para quem percorre o principal eixo viário da Zambézia, situando-se a meio caminho entre Quelimane e Namacurra.

Sendo um dos menores distritos da província zambeziana, a sua organização desenvolve-se por 2 divisões administrativas: o posto sede de Nicoadala e o costeiro de Maquival.
Contrariamente à dimensão, a densidade populacional do distrito é das mais elevadas e a ruralidade é fortemente vincada, assumindo-se a agricultura familiar como actividade imperativa para a sustentação das suas gentes, subsidiariamente complementada pela pesca artesanal na zona do litoral. Culturas como o arroz e o milho, ou a mandioca e a batata doce, sempre mereceram um amanho esforçado, sendo também certo que já há muito granjeou justa fama o soberbo ananás produzido nestas terras.

Numa Zambézia que tarda em consolidar as suas potencialidades turísticas, alguns recursos naturais do distrito de Nicoadala perfilam-se no horizonte para garantirem um contributo assinalável.
Neste contexto, se a orla marítima do posto administrativo de Maquival proporciona praias de cativante beleza, como é o caso de Zalala, pedindo meças com a concorrência, já na área do posto sede a natureza persiste em surpreender os que privilegiam espaços genuinamente bucólicos, denunciando que o sossego e a tranquilidade se libertam à dimensão de todas as exigências.
Assim, enquanto que Nhafuba, com as suas águas termais, reivindica protagonismo perante os que carecem de especial repouso, também a Lagoa Azul, situada na localidade de Dugudiua, instiga os amantes de calmas aventuras, desvelando-se em cenário paisagístico de enlevo.

Ao ritmo de ondular lânguido,
Beijas margens que te abraçam;
E eu só... com palavras,
Em murmúrio amante!

De azul fulgente seduzes
O olhar que te contempla;
E eu agora... tão distante!

Qual pérola na planície,
A água as formas te alimenta;
E eu aqui... penando na nostalgia,
Com sede a cada instante!

  • César Brandão, 04.02.2009

sábado, janeiro 17, 2009

UM VOO AO CHINDE


O pequeno aparelho cruza os céus de Quelimane mas hoje não se imobilizará no aeroporto que, manhã cedo, já sobrevoa.

O tempo, sem se apresentar risonho, não intimida a determinação dos expeditos tripulantes.
No horizonte o Índico mostra já a sua face e as ilhas multiplicam-se na sinuosidade dos rios que se entrelaçam.
Nas imediações do Canal da Chica eis que aflora o último povoado da ponta sul de Olinda, denunciando que o destino imediato é o Chinde, essa ancestral urbe zambeziana que, ora despida da prosperidade de outrora e condenada a sobreviver entre rios que flanqueiam e um mar mordente, ainda suporta um isolamento sufocante, acentuado pelos trilhos difíceis remetidos ao abandono.

No coração do delta, onde o Zambeze exorbita o seu enredo de águas e o mangal se exibe em suprema opulência, vislumbra-se então o ferro velho dos barcos que apodrecem. À falta de melhor sorte, ao menos acolitam a vontade do poeta como retiro certo para o descanço das almas que não deixaram de sonhar.

E mesmo ali ao lado, suspenso em restinga traiçoeira, o Chinde anuncia-se na que já será a sua terceira ou quarta versão, no presente carente de praticamente tudo.


O monomotor volteia agora o espaço onde um casario decadente dissimula auras passadas, preparando-se para abordar o verdejante aeródromo.
A sua presença logo desperta a curiosidade da miudagem que, num ápice, se concentra no velhinho terminal.
Afinal, para alguns será mesmo a primeira oportunidade para observarem as manobras de tal "intruso".

Sobre o compacto gramado que ondula, frenético, o Cessna contacta o solo. Uma ou outra irregularidade não perturbam o movimento seguro e, finalmente, o aparelho imobiliza-se lá bem ao fundo de uma pista raramente procurada.
E o momento de extravasar emoções acontece - já nada refreia a pequenada que em júbilo contagiante rapidamente se aproxima do pequeno avião.

Nos frágeis corpos onde a rude pobreza se evidencia há rostos radiantes que comovem, provocando mesmo alguma estupefacção - no infortúnio de um mundo desvairado como são fortes estes "príncipes do nada"!

Ultrapassadas a timidez de uns e a surpresa de outros a onda de empatia gerada proporciona um convívio expontâneo.
Suspirando por um refrescante banho, a proposta dos viajantes logo mobiliza adeptos que se prontificam a orientar o desafio, tanto mais que no Chinde sempre sobram águas para desejos tais.

Perante o rebuliço infantil que se expressa com vigor no duro areal, os mais afoitos não perdem tempo para afrontar as sossegadas águas.
Na tranquilidade reinante, um olhar distante e perplexo sonda com minúcia o cenário mas o pensamento do petiz não se desvela - porventura, não sabendo nadar, sentirá mágoa? Ou serão relatos sobre crocodilos a apoquentar o espírito?

As horas avançam e na pista ultima-se a armação da tenda porque o retorno só acontecerá no dia seguinte. A cana e o coco, já ali patentes, símbolos da generosidade que o húmus da imensa planura é capaz de fomentar, relembram que nas asas do futuro o seu contributo pode ser decisivo para a reconstrução deste martirizado pedaço zambeziano.
Garbosas, mulheres prosseguem na sua admirável labuta, de soslaio cogitando sobre o insólito exposto. E, entre todos, elas bem merecem a perenidade da esperança - assim a solidariedade humana queira e os deuses não demorem a abençoar esta terra.


César Brandão, 17.01.2009