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quarta-feira, outubro 18, 2006

GURUÉ - Memórias Na Paisagem

Situada na Alta Zambézia, a região do Gurué exibe uma paisagem profundamente marcada pela cultura do chá, implantada em superfícies onduladas dos relevos suaves e periféricos do sistema montanhoso envolvente, dotado de afloramentos rochosos dominantes, atingindo a máxima expressão no Namuli, com 2.419 metros de altitude.

A cultura do chá foi introduzida em Moçambique nos primórdios do século passado, sendo responsável pelos primeiros ensaios a Empresa Agrícola de Lugela, localizada na zona fronteiriça de Milange.

Perante os promissores resultados, foi encetado o fomento da cultura em regiões com condições de altitude e de precipitação favoráveis, operando-se a sua expansão, para além de Milange, nas áreas de Gurué, Tacuane e Socone.

O êxito alcançado com a adaptação da cultura no Gurué determinou um progressivo crescimento da área plantada, responsável por uma galopante mudança da paisagem, guindando a região para um protagonismo paisagístico de eleição e uma vitalidade económica do sector do chá sem precedentes em Moçambique.

Nomes como Junqueiro, Felizardo, Farinha, Ribeiro ou Duarte, entre outros, identificam figuras que marcaram o tempo desta gesta pioneira que da memória se sorve quente, bem quente, na justa dimensão da grandeza dos sonhos e da nobreza da obra.

Cumpre pois à narrativa, na força da sua autenticidade, como é o caso de Coisas Novas de Sempre, elucidativo texto em tempos escrito por Maria do Carmo Abecassis, perpetuar a imagem daqueles que a morte suplantaram.

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COISAS NOVAS DE SEMPRE

  • Os países, para além dos padrões lançados às margens recém-descobertas, dos acordos e contratos entre governantes e das linhas teóricas traçadas na tortuosidade dos mapas, são essencialmente no começo a obra de um punhado de homens que consumaram a posse pela coragem e força de vontade na luta contra o desconhecido. Temos os bandeirantes no Brasil, os pesquisadores do ouro e os conquistadores do «Far-West» americano, os Boers na África do Sul, os pioneiros que em todo o mundo se lançaram à descoberta e reconquista de terras já suas, selvagens, incultas e inóspitas, metendo ombros à árdua tarefa de concretizar e selar a posse, na busca de promessas de riqueza e fecundidade.

  • Cada grão de terra, uma gota de suor e um acto de fé.

  • Moçambique teve os seus pioneiros e desbravadores, homens cuja história é quase totalmente ignorada. Eu tive a sorte de conhecer um desses homens (os outros que me perdoem).

  • Foi no Gurué. Prefiro Gurué a Vila Junqueiro. Gurué, um nome que canta, como as suas quedas de água na rocha bruta da montanha.

  • Uma casa de terra batida, sem alicerces nem infra-estruturas mas com uma inesperada grandiosidade, construída pela força de vontade na ausência de quaisquer ajudas ou conselhos técnicos, predestinada a cair mas milagrosa e orgulhosamente de pé, ao fim de cinquenta anos de existência. Rodeada de velhíssimos eucaliptos e carvalhos que parecem sentinelas adormecidas no tempo. Pousada a centenas de metros de altura e virada para o vale que se perde em verde na distância. Como que erguida na calma certeza do raiar do sol em cada manhã.

  • Para trás, contra a serra, as capoeiras, as flores e os pássaros. E um criado...rendeiro. Um negro grande e sólido, já não muito novo, sentado num banco baixo, à sombra das árvores e na chilreada dos pássaros, a fazer croché. A renda que se desenrolou ao longo dos anos, para o bragal da casa, o enxoval do casamento, o berço dos filhos, a expectativa dos netos. (Este flagrante contraste com os nossos ridículos preconceitos machistas ocidentais, sobretudo latinos, fez-me sorrir). Um homem a fazer renda. Não me pareceu menos homem por isso.

  • Nos primeiros momentos de entrada na sala, vasta e com um pé direito alto, de encontro à tristeza de um luto recente, a morte da dona da casa, fez-se um silêncio embaraçado, um grupo de gente nova e um homem envelhecido pela doença e pelo desgosto.

  • Fui ter com ele à janela, aquela indescritível janela aberta sobre as mil pinceladas de verde dos jardins suspensos do chá, o verde-claro em que os rebentos cresciam, o verde-escuro onde as folhas tenras já tinham sido colhidas, os grupos de trabalhadores com os típicos cestos às costas, estátuas belas e seminuas de cobre reluzente de suor no reflectir do sol que já descia no horizonte, as nuvens vestidas de arco-íris, sinfonia vibrante de cores, do rosa ao cor de fogo, do branco de neve ao amarelo ouro, no fundo turquesa daquele céu africano. Africano?...As montanhas abruptas e erguidas em volta lembravam Alpes suíços ali colocados por engano, em terras de África. E todo esse mar de verde aos nossos pés, cortado por longas e assimétricas filas de acácias menstruadas, no sangue vermelho vivo da sua plena floração.

  • E com este pano de fundo, ele falou. Com a maior simplicidade contou como ele e dois amigos tinham arrancado cada palmo de terra à caça grossa e ao capim para plantar o chá até onde o clima de altitude o permitira. Longos anos de esforço. Trabalho duro e sem descanso. O fruto de uma vida. Onde o amor àquela terra crescera e criara raízes em cada pé de chá que fora, um a um, plantado com aquelas mesmas mãos que eu via à minha frente estremecendo de emoção na memória tão recente do passado. A ida à sua aldeia perdida em Trás-os-Montes para casar com a noiva predestinada. O amor que os unira, os filhos que nasceram e morreram dos quais apenas um sobreviveu, as alegrias e os fracassos de uma luta sem tréguas. Mas uma luta compensadora, com frutos à vista. A morte da mulher pioneira, companheira fiel e constante de uma obra começada. E espalhados pelas serranias, como tive ocasião de ver, os vários familiares, chamados pouco a pouco para o ajudarem, os mesmos olhos azuis, a mesma hospitalidade simples do pão acabado de cozer e do queijo caseiro postos em cima da mesa, no mesmo sorriso confiante de quem sabe o que quer e o que está a fazer. De quem sabe que está a construir o futuro com as mãos, um futuro que está ganho se depender exclusivamente da abnegação, coragem, desprendimento e trabalho incessante, espírito de sacrifício nascido no intrínseco amor à terra, o mais velho e nobre sentimento humano.

  • Que esta seja a minha homenagem póstuma a um Homem, com letra maiúscula, um dos fundadores do Moçambique de hoje.

  • Grande na sua humildade, porque só as almas grandes sabem verdadeiramente ser humildes.

À memória de Américo Colaço Felizardo, por Maria do Carmo Abecassis


Aflora a montanha, grandiosa em suas cristas que desafiam conquistar os céus, libertando adejos de canoros cânticos, sinfonia única na natureza que respira recantos sagrados do povo Lómwe. Do seu seio despertam águas que se precipitam na aventura do leito para demoradas viagens, esculpindo fragas nas suas quedas.


E à lonjura desta Zambézia, maior e mais alta foi a caminhada daqueles que outrora a demandaram. Arroteando faldas de vermelho tingidas, alicerçaram então o plantio da camélia verdejante que urde a folha do excelso chá.


Imortaliza-se agora a paisagem em deslumbramento da vista pela magnificência do verde que ondula por outeiros que desfilam em gala quase secular, e onde mãos ágeis mutilam tenros brotos que as estações do tempo renovam.

Na apoteose de colheitas lacrimeja a seiva afagando feridas que se querem saradas. E na profunda suavidade do silêncio solta-se a rima que embala momentos de êxtase.


César Brandão – 18/10/2006

5 COMENTÁRIO(S):

  1. Não apreciei o texto, demasiado poético, pois conheci o velho Felizardo e o filho, e muitos dos que
    trabalharam no chá, quer no Gurúè, quer no Socone e em Milange, quase todos já desaparecidos, mas fica ao menos o registo de alguém que por lá
    passou e teve oportunidade de testemunhar o enorme trabalho realizado por aqueles homens e mulheres que ali deixaram um exemplo ímpar de trabalho

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  2. Joaquim não sei quem é, mas pelos vistos conheceu o "Velho Felizardo", como tão carinhosamente era conhecido pelos amigos, e também o filho - se por acaso não se lembra do nome dele (visto que não o menciona) é o Tó Felizardo. Também eu conheci MUITO bem os Felizardo, frequentava a casa deles no Gurué e ainda hoje estou com o Tó uma vez por outra. E por ter conhecido tão bem o "Velho Felizardo" é que acho que o texto não tem poesia a mais. Porque o Gurué é poesia sim, e porque o Velho Felizardo ajudou a fazer essa poesia. Obrigada.

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  3. antonio de Almeida lopessexta-feira, outubro 19, 2012

    Nasci no Gurué, Mualacala, o meu pai era Joaquim Francisco Lopes, natural da Sertã, Portugal,minha mae era Aurora IrenioBaptista de almeida lopes, nascida em Quelimane, o meu pai tinha a Empresa Colonial de Chá. Saí do Gurue para vir estudar no Colégio Moderno-Liboa-pertencia ad Dr.João Soares, pai do nosso Ex Presidente da Républica Portuguesa. Sou um realizador de Filmes, e confesso que tenho muitas saudades da minha terra, que A tenho muito viva na minha memória. Sou da criação do To Felizardo, do Sá Melo dos filhos do DrºOliveira,conheci o Felizardo Pai, o Junqueiro, o Ribeiro Artur, Santiago,meu tio Arnaldo Lopes, felizmente ainda vivo,tambemtou de acordo com a homenagem que se deve fazer a estes Bandeirantes que desbravaram a região da Alta Zambézia, plantando Chá, e elevando o nivel e a qualidade deste produto a nivel internacinal. Bem hajam quem fez nascer este ouro verde na cercania do Gurúe.--Antonio Irenio de Almeida Lopes--Gostaria de voltar á minha terra e documentá-la.A poesia de que dizem e falam mora em cada uma das nossas recordações, e deveremos exprimir sempre que pudermos, seja qual for a expressão que a utilizarmos.Obrigado por deixarem desabafar um sentimento guardado há dezenas de anos.

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    1. antonio, conheço-te há muuuitos anos.....folgo que estejas bem, pois não te vejo desde os tempos da nossa juventude, ali para os lados da praça de londres... do bowling, recordas-te? a proposito, como está o Diamantino Tiago? Também não o vejo nem contacto há imensos anos... a vida é complicada, separa os Amigos, mas as recordações, essas, vão estando quase sempre presentes.
      Gostei do teu texto e principalmente de verificar que gostarias de voltar a Moçambique! Junta-te a mim, pois eu também gostaria de voltar.... a Angola!
      Sei que não saberás quem sou! Nem com um grande exercício de memória! Ficamos assim... eu no anonimato e tu na expectativa de saber quem sou!
      Faz um "filme", faz "rewind" e pode ser que chegues lá!
      Beijinhos Amigo.



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  4. Também nasci no Gurúè 1949, no Chá Mococha junto ao chá Metilile, e aí vivi os meus primeiros e maravilhosos 10 anos.
    Adorei este texto de Maria do Carmo Abecassis.
    Aprendi a chamar Gurúè aquela região no cimo junto aos míticos e sagrados Picos Namul. Só em Outubro de 1959 oficiosamente tentaram rebatizar a vila de Vila Junqueiro em homenagem a Manuel Saraiva Junqueiro um dos seus pioneiros no cultivo do chá. Mas este nome de Vila Junqueiro só funcionava nos papeis. Os seus habitantes sempre chamavam de Gurúè.
    A origem deste nome, na minha humilde investigação provém da palavra Elomwé "Ikuruéne" ("ikuru" siginica "poder" ou "força" e "éne" quer dizer "próprio" ou "seu mesmo") ou simplesmente da expressão "Ikurué" que significa "poderoso". Aquela região junto dos Picos Namuli é um lugar poderoso. Há referências de senhores de Prazo e Sultanatos, de raiz árabe, no comércio de marfim e escravos do século XIX de chamar aquele lugar "Al Gurué" donde os seus homens não regressavam.
    António Luis Pereira Coelho

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