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sexta-feira, novembro 02, 2012

CHINDE: 100 anos entre o desespero e a esperança

Para quem a vida é madrasta, cada novo amanhã é sempre a esperança de uma existência melhor. É assim que vive o Chinde. Isolada fisicamente, cercada de pesadas dificuldades e abandonada, a pequena vila da foz do Zambeze, está há décadas na espera, uma espera agoniante, perigosamente fatal, onde a própria esperança teme a morte, dada a luta titânica que trava contra as acções da Natureza e do Homem.
  • Maputo, Quinta-Feira, 13 de Setembro de 2012:: Notícias

Chinde está hoje em festa. É o seu 100º aniversário. No longínquo ano de 1912, a povoação de casas tipo palafita erguida na margem direita de um dos braços do extenso delta do Zambeze, ganhava o estatuto de vila. Hoje, centenária, Chinde não pensa no seu progresso mas em como evitar o seu desaparecimento como vila, como povoado ou mesmo como local habitável. 

Localizada no sul da província da Zambézia, a vila do Chinde, sede do distrito de mesmo nome, teve o seu florescimento, tal como hoje a sua morte, sempre ligada ao portentoso rio.

Como porta de entrada para a exploração das terras do interior, primeiro, concessão (entreposto) inglesa para abastecimento da Niassalândia (Malawi) depois, a pequena aldeia cresceu, metamorfoseou-se numa vila ordenada, com casas de alvenaria, ruas asfaltadas, banco, clube, biblioteca e energia eléctrica dia e noite.

Mas o seu ex-libris eram os barcos tipo Mississipi, rodando as enormes pás na parte traseira. Quem não se lembra do “Mezingo”, do “Zanha”, do “Mouzinho de Albuquerque” e outros, o “Mazzaro” o “Quarra” ou o “Marruma”, subindo e descendo o Zambeze, em viagens, por vezes de alguns dias, até Tete. Navegações cansativas? Nem tanto. Era um regalo ver os crocodilos se bronzeando nos bancos de areias, ver o banho dos hipopótamos, ver o esforço das canoas – lá, são almadias - para fugir das ondas provocadas pelas pás impulsoras dos barcos, ver o aceno de desconhecidos nas margens verdes para desconhecidos no meio do rio, gente pescando, tomando banho, lavando roupa e loiça, mesmo sabendo que algum crocodilo esfomeado pode estar à espreita. Enfim, o Zambeze tinha (tem) muitas coisas a oferecer às suas visitas.

Entretanto, o progresso das comunicações por via-férrea - ligação Beira-Malawi e depois o ramal de Inhamitanga-Marromeu - retirou certa importância ao Chinde, mas a vila manteve algum do seu esplendor, com a mesa farta de arroz, banana, coco, peixe e mariscos, bebendo as águas do Zambeze e salgando tudo com o imenso Índico. Além do mais, as açucareiras de Luabo e Marromeu ainda laboravam.

Depois da independência e por causa da guerra civil que se lhe seguiu, Chinde caiu quase à estaca zero. A paralisação completa da produção açucareira, o superpovoamento devido aos deslocados de Luabo, Marromeu e até de Mopeia, e o corte completo da rede de comunicações sufocaram a vila. Servida antes por carreiras fluviais diárias, uma linha marítima ocasional e três carreiras aéreas semanais (para Quelimane e Beira), além das precárias, mas funcionais, vias terrestres (por Micaúne e Luabo), a vila virou a Ilha do Misteriosa, isolada, esquecida, perdida no mapa.

Veio a paz, chegou a esperança, um cumular de promessas anunciadas (quase nenhuma cumprida) e muitos desafios à vista, a frente dos quais encontramos as vias de acesso e o bicudo problema da erosão. Qualquer aposta no Chinde sem a resolução destas duas questões é deitar o dinheiro literalmente na água. 
Vinte anos de paz, entrar ou sair, trabalhar ou viver no Chinde é um acto ou de coragem, ou de desespero, ou de “mercenarismo” e/ou de paixão. Para os povos do Chinde e de todo o Vale do Zambeze é urgente, porque é vital para o seu desenvolvimento, a resolução do problema da navegabilidade do grande rio. Um projecto de transportes para o distrito que não assente no Zambeze tem grandes probabilidades de fracasso. Sabemos que não á fácil navegar o Zambeze, ora é um pântano, ora é um mar, consoante a disposição que assume em tempo seco e na época chuvosa.

Sobre a erosão, o assunto não é menos grave. A força das águas do Zambeze e os ventos soprados pelo Índico vão desgastando a vila. A parte velha da urbe está a desaparecer, levada pela água que já ameaça a nova. Segundo fontes, o Chinde de hoje é o terceiro, os dois anteriores, forças da Natureza o levaram.

O Homem também pouco faz para minimizar os efeitos ou impacto dos factores naturais. Do asfalto de outrora das ruas sobram pedras ornadas de capim ou relva, os muros vão tombando. No Chinde, a jardinagem não é apenas um exercício de estética mas de preservação, de sobrevivência. Implantada em terrenos de areias soltas, é vítima fácil da erosão. A relva e as flores que, antigamente, tornavam todo burgo num jardim, volatilizaram-se. A terra ficou nua, e as areias desapegas viajam para destinos que ventos levianos querem.

Apesar de todas estas adversidades, neste virar do seu primeiro século de vida como vila, Chinde, como alguém já disse, sonha - e tem condições para tal – em voltar a brilhar como um farol de desenvolvimento bem ali ao sul da província da Zambézia, bem ali onde as águas do grande Zambeze se juntam às do Índico.

E é a esperança que hoje move o Chinde nesta festa do seu centenário, mesmo consciente que as águas e os ventos lhe tiram o chão. Mas são a mesma água e o mesmo vento que reforçam essa esperança porque a terra que tiram de um lado depositam-na doutro. O rio se aproxima da vila e o mar se afasta. É assim o Chinde, com surpresas e mistérios. Lugar certo para que geógrafos, biólogos, ambientalistas, descubram os caprichos da Natureza.

José Machado - sempreaki@ymail.com

NOTA - Na minha infância há um percurso indelével vivenciado na área de Micaúne, parte integrante das terras do Chinde, o qual cimentou um particular sentimento afectivo por esta primeira vila zambeziana que, no ano em curso, atingiu o estatuto de vila centenária.
Marcada por uma opulência do passado e pela miséria do atribulado presente, a vila vai sobrevivendo na voragem do tempo. Silenciosamente, as suas gentes sofrem perante tão injusto e desmesurado antagonismo de ciclos.
Que a esperança resista nas chagas abertas, alicerçando horizontes que contribuam para o progresso da urbe e a dignidade humana. O Chinde requer que se garanta um futuro diferente na sua história.
O álbum abaixo expressa um singelo tributo pessoal à vila de Chinde, apenas possível pelo recurso às seguintes fontes:

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