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domingo, dezembro 25, 2016

MEMORIAL DE QUELIMANE: VII - Avenida Marginal

Projectada numa extensão que se aproxima de um quilómetro e meio, a avenida domesticou o rio que se espraia em estuário imponente e preguiçoso, há muito viciado em gemer de amores pela marginal da cidade que jamais deixou de contemplá-lo com a cumplicidade dos eternos amantes.

Os entendidos proclamaram mesmo ser esta zona um reino dentro de Quelimane e seu ex-libris sedutor.

Naturalmente que o comum dos mortais nunca ficou imune a este cenário, desde logo aprimorando enlevo e paixão crescentes. Na sua expressão mais exacerbada, conta-se que um "muana chuabo", junto à marginal, terá adoptado para habitação vetusto mas resistente coqueiro - cozinhando e descansando durante o dia, à sua sombra, para nas noites subir à copa, dormindo a ver as estrelas.

Faz já anos que nesta ponta soçobrou preciosa pérgola, outrora local eleito para incontidos afectos, ou para o exercício de tagarelices por parte de militantes tertúlias.

Mas aqui, ontem como hoje, o entardecer raramente deixou de exibir o seu traje de gala, rubro e de brilho estonteante.
E, vinda lá da praia das gazelas, a almadia intensifica a maresia índica com o seu balanço sereno.

Apenas um senão: - ao longe, do Carungo em combustão, inspira-se a saudade com vigor mas só resquícios das fragrâncias do coco enriquecem o momento.


No sentido da zona portuária, palmilhado pouco mais de metade do percurso, somos surpreendidos pelo que foi, no passado, património religioso de referência da cidade - a igreja de Nossa Senhora do Livramento, belo edifício em que as duas torres sineiras sobressaem na panorâmica, dominando toda a avenida e insinuando-se de mirante privilegiado das águas do rio.

Silenciosamente, o tempo foi depauperando a estrutura do templo e a incúria humana mais não fez que acelerar a decadência.
No presente, o estado de ruína em que se encontra não enobrece a cidade e é um traço de vergonha para a sua comunidade.

Nos primórdios do anterior século, vindo lá dos lados do Chuabo Dembe, certo felino terá, despudoradamente, deambulado pela urbe em devaneio noctívago, apavorando as gentes.
Se o leão reencarnasse hoje, perante a agonia do templo, certamente não acamaria a juba, rugindo ao rio por, neste caso, não ter sido nada de Bons Sinais.

Na bruma que a noite acentua, junto à rampa do jardim onde manobraram gasolinas e tantos acariciaram sonhos, alguém perscruta o horizonte visionando presumível paixão.

Por mim... daquele mesmo jardim, com sufocante ternura, sobra a recordação do banco de infância onde, irremediavelmente, o feitiço africano começou a possuir-me.

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